Andreia Carvalho: Estamos a comer mais bananas, cebolas e cenouras

Será que, para comer de uma forma mais saudável, podemos aprender com as gerações anteriores? Essa é uma das questões que pode ser levantada face aos resultados do mais recente estudo da Nielsen, a que o Jornal Económico teve acesso.

Essa é uma das questões que pode ser levantada face aos resultados do mais recente estudo da Nielsen, a que o Jornal Económico teve acesso. Este estudo traça um perfil do consumidor português no segmento das frutas e legumes, um consumidor que se preocupa com a alimentação saudável.

A Nielsen identificou vários segmentos diferentes de consumidores com base no peso que o gasto em frutas e legumes tem na sua cesta de compras e concluiu que são 19% dos compradores portugueses que concentram 36% do valor gasto em frutas e legumes. A sua compra média é composta maioritariamente por produtos frescos e feita geralmente em formatos de loja mais pequenos. Estamos a falar de um consumidor sénior, com 54 ou mais anos, que vive num agregado menor, sem crianças, e que pertence à classe social alta ou média alta.

Do lado que menos compra este tipo de produtos encontram-se 20% dos compradores, que concentram apenas 5% do valor gasto em frutas e legumes. A sua compra média é composta por menos produtos frescos. Este consumidor denota a procura por categorias de indulgência e conveniência. Os hipermercados possuem mais relevância para este comprador (por comparação com o perfil anterior). Estamos a falar de um perfil de consumidor mais jovem (responsável de compra até 53 anos), que vive num agregado maior, com crianças, e que pertence à classe social média. Andreia Carvalho, analytics consultant da Nielsen, ajuda-nos a ‘ler’ estes resultados.

Qual é o universo do estudo da Nielsen?

A fonte desta análise é o painel de lares da Nielsen, composto por uma amostra de 3.000 lares de Portugal Continental, que registam os produtos de grande consumo que adquirem em qualquer canal de compra, numa recolha regular e contínua das compras via scanner. Esta amostra é demográfica e geograficamente representativa, retratando os 3,9 milhões de lares existentes em Portugal Continental e permitindo assim obter insights sobre o comportamento de compra e o perfil das famílias portuguesas.

Quais os locais de compras analisados?

No painel de lares da Nielsen são contabilizados todo o tipo de lojas e locais de compra visitados pelo consumidor, que indica, no momento do registo, onde efetuou a sua compra (desde mercados tradicionais e mercearias a lojas de retalho organizado ou comércio eletrónico, entre outros).

Quando foi efetuado o estudo?

O período em análise corresponde a um ano móvel (ou seja, o período de um ano até à data de análise): de 29 de janeiro de 2018 a 27 de janeiro de 2019.

Qual o comportamento dos restantes 61% dos consumidores nacionais?

Os restantes 61% dividem-se em dois grupos. Um deles pesa 25% e concentra 32% do valor gasto de frutas e legumes e o outro corresponde a 35% dos compradores e concentra 26% do valor gasto em frutas e legumes.

Como se explicam estes números? Estão em consonância com as realidades externas, nomeadamente em comparação com a UE28?

Segundo o estudo “ShopperTrends”, da Nielsen, 74% dos portugueses procuram ter uma alimentação mais saudável. Para atingirem esse objetivo, uma das principais medidas que tomam (em 2º lugar neste ranking) é exatamente o consumo de mais frutas, vegetais e leguminosas. Tendo em conta estes pressupostos, a Nielsen, a partir do seu painel de lares, segmentou, nesta análise, os lares em quatro grupos, de acordo com o seu gasto em frutas e legumes. Observou-se então que existe um grupo de lares em que as frutas e legumes têm um maior peso na cesta de compras. Esse grupo é constituído por um perfil mais sénior, com um agregado menor e sem crianças no lar. Este segmento, de menor dimensão (19%) e mais envelhecido, é aquele que concentra o maior gasto em frutas e legumes (36%), mostrando preocupar-se com a saúde e tendo uma cesta composta maioritariamente por produtos frescos. Por outro lado, o segmento que menos gasta em frutas e legumes corresponde a um perfil mais jovem, com um agregado de maior dimensão e com crianças. Apesar de também comprarem produtos frescos (em menor quantidade), a sua cesta de compras inclui, de forma muito significativa, produtos de conveniência (mais práticos, que facilitam o seu dia a dia) e de indulgência (que lhes oferecem momentos de satisfação). Este é um perfil de famílias com vidas mais ativas, que se permitem a momentos de indulgência e que procuram produtos que lhes façam poupar algum tempo para as atividades de que mais gostam (note-se que, segundo o Índice de Confiança da Nielsen, a principal preocupação dos portugueses, além da saúde, é o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional). O consumo de frutas e legumes no contexto de uma alimentação saudável é, para o segmento mais sénior da população nacional, ainda um pilar essencial da sua alimentação. Num cenário em que a saúde é a palavra de ordem, poderão as gerações mais jovens seguir o comportamento das mais antigas, numa espécie de “voltar às raízes” na aprendizagem de um estilo de vida mais saudável?

Como têm evoluído estes perfis e tendências de consumo em Portugal?

O consumo de frutas e legumes em Portugal tem vindo a aumentar ao longo dos anos de uma forma clara. Através do painel de lares da Nielsen, temos assistido a uma diminuição dos lares que consomem menos frutas e legumes, ao passo que têm aumentado aqueles em que as frutas e legumes têm maior peso, assistindo-se assim a uma transferência de consumo dos primeiros para os segundos.

Como se espera que venham a evoluir nos próximos anos e a médio prazo?

A percentagem de portugueses que procuram ter uma alimentação mais saudável aumenta de ano para ano, assim como a introdução de frutas e legumes nos seus hábitos de consumo. Por essa razão, temos todos os motivos para acreditar que esta continuará a destacar-se como uma forte tendência no mercado nacional.

Quais são as frutas e legumes que os consumidores portugueses mais compram e como evolui esse consumo em termos geográficos ao longo do país e em termos sazonais ao longo do ano?

Nas frutas, foram as bananas que tiveram um maior crescimento no último ano, aumentando 12%. Nos legumes, são as cebolas (19%) e as cenouras (16%). Nas especialidades de frutas e legumes, as categorias mais dinâmicas são a 4ª e 5ª gama (legumes, vegetais e saladas embalados, lavados e prontos a consumir), com um crescimento de 14%, e os frutos secos, que registam um dinamismo de 9%.

Qual a relação entre produtos nacionais e estrangeiros?

De acordo com o “ShopperTrends”, da Nielsen, a maioria dos shoppers portugueses considera importante a origem dos produtos para fazer as suas compras. Além disso, uma parte significativa revela que está disposta a pagar um pouco mais para ter produtos de origem nacional.

Artigo publicado na edição nº 1986, de 26 de abril, do Jornal Económico

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