Angola esbanjou os ‘ovos de ouro’

Vermelho, preto e amarelo. Não é por acaso que as cores que vestem as bombas da Sonangol são as mesmas que tingem a bandeira nacional. O Estado e a maior empresa do país são praticamente indissociáveis. A análise da economia angolana exige conhecimento sobre o papel da Sonangol nas receitas fiscais, exportações, emprego e investimento. […]

Vermelho, preto e amarelo. Não é por acaso que as cores que vestem as bombas da Sonangol são as mesmas que tingem a bandeira nacional. O Estado e a maior empresa do país são praticamente indissociáveis. A análise da economia angolana exige conhecimento sobre o papel da Sonangol nas receitas fiscais, exportações, emprego e investimento.

Pouco depois de ter chegado à presidência, João Lourenço reconheceu que a empresa é “a galinha dos ovos de ouro” e que é preciso cuidar bem dela. A frase foi proferida em novembro de 2017, logo a seguir à substituição de Isabel dos Santos por Carlos Saturnino na chefia da petrolífera.

O problema é que Saturnino parece não ter cuidado muito bem desta preciosa ave. O CEO foi exonerado na quarta-feira, um dia depois de Lourenço ter admitido que a grave crise de escassez de combustíveis no país resultou parcialmente da “falta de diálogo” entre o Estado e a Sonangol.

A afirmação tem tanto de inédito como de opaco. É impossível saber qual foi a parte do diálogo que falhou e quem foi responsável pelas enormes filas nas bombas da Sonangol, um regresso a um passado traumático. Na ótica do presidente angolano, a culpa foi de Saturnino, que acabou por ser substituído por Gaspar Martins, que já tinha estado no board no tempo de Manuel Vicente.

Não sabemos muito bem quais foram os outros fatores que, na visão do presidente, causaram a crise, mas alguns são evidentes, estruturais e não são novos. Angola é o segundo maior produtor de petróleo em África, mas depende de combustível importado, pois a refinaria de Luanda, a única de Angola, não tem capacidade para abastecer o país. Os atrasos no projeto da refinaria do Lobito foram vários e prolongaram esta situação paradoxal e desnecessária, e a construção ainda não arrancou. Nisso tem responsabilidades José Eduardo dos Santos e a sua gestão errática da economia e dos projetos estruturantes durante uma longa presidência.

Não se pode atribuir as culpas a tudo o que se fez no passado. João Lourenço não sai incólume deste episódio. A exoneração de Isabel dos Santos foi uma jogada estratégica política, mas arriscada, pois a solução seguinte teria de resultar, o que não aconteceu.

Numa altura em que muitos angolanos transmitem agrado sobre alguns aspetos da liderança de Lourenço, como a maior abertura da imprensa e a relação menos intolerante com a oposição (partidária e da sociedade civil), há ainda uma fonte de descontentamento – a economia. A ausência de melhorias nas condições de vida dos angolanos podem vir a ser o calcanhar de Aquiles da transição efetuada pelo novo presidente. Filas nas bombas de gasolina não irão, certamente, ajudar a atenuar esses sinais de descontentamento. Em termos políticos, o episódio poderá alimentar outra oposição a Lourenço, a de Isabel dos Santos.

Em Portugal, onde há menos de um mês vivemos uma curta crise de combustíveis, poderá também haver efeitos da mudança na Sonangol. A petrolífera é acionista de referência de duas grandes cotadas no PSI 20. Miguel Maya, CEO do Millennium bcp, já disse que não antecipa nenhuma consequência. O passado recente mostra, no entanto, que as posições da Sonangol no banco e na Galp podem não estar tão firmes. Antes da visita de Estado a Portugal, em novembro, João Lourenço sinalizou que as participações não são necessariamente core e podem ser vendidas. Durante a visita deu um passo atrás e acrescentou que são posições estratégicas, mas não rejeitou a intenção, numa espécie de ‘nim’ desenhado para nos manter em suspense.

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