Anthony Bourdain, sem medo do desconhecido

Anos mais tarde, Bourdain iria referir-se ao episódio de Beirute como o ponto de não-retorno. A partir desse dia, tornou-se obsceno voltar a focar-se meramente na comida. Sabia que a gastronomia era a porta que lhe permitia conhecer parte de uma cultura, mas queria contar histórias que fossem mais além.

“What I like and what I need are two different things.”

The Wild Bunch (1969)

 

Na manhã do dia 8 de junho, Anthony Bourdain foi encontrado no seu quarto, sem vida, por um dos seus amigos mais próximos, o chef francês Éric Ripert. Nas suas últimas horas de vida, decidira enforcar-se, um ato fulminante e brutal que pôs fim a quaisquer demónios que o tivessem perseguido. Carismático, arrojado, de uma honestidade feroz, a transpirar uma energia de bad boy, alcançou a sua reputação com um livro que expôs parte do submundo sórdido da restauração nova-iorquina, Kitchen Confidential (nunca publicado em Portugal), tornando-se uma celebridade norte-americana da noite para o dia.

Se esse livro provou alguma coisa foi a habilidade de Bourdain em tecer uma narrativa perturbante e crua onde imperam marginais que trabalham em condições extremas em cozinhas despidas de glamour, e onde a toxicodependência, o sexo e a selvajaria capitalista deixavam as suas marcas profundas. As revelações presentes no livro transformaram-no num fenómeno de culto. Afinal, não é todos os dias que um chef de cozinha revela aos clientes para não escolherem peixe às segundas-feiras numa veia tão literária.

Chegando relativamente tarde à fama, aos 43 anos, era muitas vezes o típico outsider, sem nunca encaixar por completo em nenhuma categoria que lhe quisessem atribuir. Até a sua lista de filmes favoritos reflete o seu gosto por protagonistas que vivem à margem da lei e não pertencem ao sistema, como The Wild Bunch, Seven Samurai, Mean Streets, Goodfellas, The Friends of Eddie Coyle ou Get Carter (versão de 71). Contrariando sempre as expetativas, Bourdain não se limitava a ser apenas uma coisa, mas muitas: podia ser um chef internacional, um cinéfilo obsessivo, um escritor, um ativista. No entanto, seria como estrela de televisão que Bourdain iria alcançar maior notoriedade e entrar nas casas de todas as famílias.

Anthony Bourdain: no reservations

Em 2005, Bourdain iria encontrar o seu verdadeiro elemento de expressão. Produzido pelo Travel Channel, o programa televisivo “No Reservations” partia de uma premissa simples: visitar os países do mundo inteiro e mostrar aos espectadores a gastronomia local, não se limitando a famosos restaurantes, mas entrando pelas casas adentro onde Tony, como era chamado, muitas vezes era recebido como um membro da família.

Cedo desenvolveu a sua imagem de marca, a de uma personalidade exuberante incapaz de se conter na linguagem, herdeiro do espírito jornalístico e literário de Hunter S. Thompson (que também cometera suicídio).

Mas para além da personalidade pública que criticava a falta de autenticidade na cozinha, existia o chef que não tratava o estrangeiro como um ser exótico a expor a sua cultura exótica. Bourdain imiscuía-se no meio, procurando aprender, nunca interferindo ou alterando, sempre a privilegiar as relações com os nativos de todos os bairros e classes sociais. Não lhe interessava apenas o lado bonito e cosmopolita, mas também o modo de vida nas zonas urbanas mais problemáticas ou no interior onde ainda abundavam tradições milenares (como a matança tradicional do porco em Celorico de Bastos no seu primeiro programa televisivo “A Cook’s Tour”). Se há algo que se distinguia em todos os programas e todas as culturas era o convívio e a boa disposição em torno da mesa. Sabia que a comida permitia às pessoas baixar as suas defesas e se abrirem de um modo que lhe permitia extrair o elixir da vida dos países que visitava.

Mas a sua visão do mundo estava prestes a se alterar de forma abrupta, quando confrontado com o pior lado da Humanidade: a guerra.

Líbano, um momento de rutura e despertar

Em julho de 2006, Bourdain e a sua equipa de filmagens encontram-se em Beirute, no Líbano, a gravar mais um episódio de “No Reservations”. O chef encontra uma cidade quente, frenética e cosmopolita, com uma vida noturna intensa e que nunca dorme. Quando finalmente começa a compreender um pouco da cidade e da sua história mais recente, assiste, em choque, da janela do seu quarto de hotel em Beirute, aos primeiros bombardeamentos de Israel que têm como alvo a destruição do aeroporto.

Bourdain não tinha forma de saber, mas apanhara o Líbano no exato momento em que o Hezbollah, a milícia libanesa que opera no sul do Líbano na fronteira com Israel, estava a orquestrar uma série de ataques a soldados israelitas posicionados na fronteira, culminando no rapto de dois soldados israelitas. A retaliação de Israel foi severa e o seu uso de violência desproporcional nesse verão conduziu à Guerra do Líbano de 2006, com Israel a proceder ao bombardeamento de infraestruturas, invasão terrestre e bloqueio aéreo e naval.

De súbito, fazer um programa culinário deixou de ser uma preocupação. A semana que Bourdain passou preso num hotel em Beirute, à mercê de bombardeamentos diários, deixou a sua marca no chef. O que estava destinado a ser mais um episódio do programa, transformou-se num documentário (mais tarde nomeado para um Emmy), onde assistimos à intensa amargura e frustração de Bourdain por se ver impotente no meio de habitantes que estavam a ser, de súbito, alvo de uma guerra. As cenas finais do documentário mostram Bourdain a ser evacuado por marines norte-americanos, a bordo de um cruzador, e um sentimento de pessimismo e deceção infiltra-se na sua narração em voz-off. As suas palavras ecoam no final do episódio, à medida que o cruzador norte-americano sulca o Mediterrâneo:

“Nas minhas viagens pelo mundo, senti-me a mudar. A visão cínica do mundo que tinha a partir da cozinha de um restaurante havia mudado. Comecei a achar que em qualquer lugar e com qualquer pessoa, a comida e a bebida poderiam sempre unir as pessoas, que este planeta tinha gente boa e decente fazendo o melhor que podia em circunstâncias difíceis e que o Homem talvez fosse melhor e mais gentil do que eu pensava… acreditei que pessoas de lugares diferentes poderiam sentar-se, conversar, comer e beber… e se não conseguissem resolver todos os problemas do mundo, pelo menos encontrar algo em comum por um momento. Agora já não tenho tantas certezas… talvez o mundo não seja assim de todo”.

Anos mais tarde, Bourdain iria referir-se ao episódio de Beirute como o ponto de não-retorno. A partir desse dia, tornou-se obsceno voltar a focar-se meramente na comida. Sabia que a gastronomia era a porta que lhe permitia conhecer parte de uma cultura, mas queria contar histórias que fossem mais além. “No Reservations” terminou em 2012, após nove temporadas inesquecíveis. Mas o melhor ainda estava por vir.

Sem medo do desconhecido

Nunca recusando fazer parte do mundo da celebridade, com os seus infindáveis reality-shows, Bourdain conseguiu criar, através da CNN, o programa televisivo dos seus sonhos. Apropriou-se do mesmo conceito de “No Reservations”, mas adotou um tom muito mais politizado e sem quaisquer restrições de tema. Permitiu a Bourdain viajar partes remotas do mundo e expressar-se como nunca antes. Consciente do seu estatuto de homem privilegiado, nunca se arredava do verdadeiro foco: através da comida e bebida, criar pontes de compreensão entre as culturas de todo o mundo. O seu programa filmado no Irão, em 2014, fez mais por diplomacia do que qualquer outro governo norte-americano nas últimas décadas. Revelou aos espectadores de todo o mundo a riqueza da cultura persa e a sua hospitalidade e sofisticação. Revelou um país que nem se identifica com o ocidente nem com o oriente e que sempre se considerou muito mal retratado desde a Revolução Islâmica do Irão.

Outros momentos políticos de enorme importância derrubaram preconceitos e cicatrizes do passado, como o programa em Hanói, Vietname, em que assistimos a Bourdain a comer uma refeição de 6 dólares na companhia do presidente norte-americano Barack Obama, o mesmo Obama que prestou tributo a Bourdain como o homem que nos fez recear menos o desconhecido.

E, claro, acabou por regressar ao Líbano em 2015 para, finalmente, fazer o programa que o impossibilitaram de fazer em 2006, apaixonando-se por Beirute, uma cidade que desafia lógica e expectativas, e “onde se podem encontrar facilmente todos os males, todos os problemas do mundo, coexistindo ao lado das melhores coisas sobre sermos humanos e estarmos vivos”.

Foram inevitavelmente os programas mais politizados que granjearam mais audiência e que derrubaram fronteiras. A sua consciência social e política não lhe permitia que fosse de outra forma. Após a notícia do seu suicídio começar a circular nas redes sociais, não faltaram dezenas de tributos de celebridades e anónimos que ele tocou em todo o mundo.  A sua generosidade veio a público em inúmeros testemunhos de pessoas que ajudou ao longo do caminho. Graças a ele, milhares de pessoas tornaram-se mais conscientes nas suas viagens.

À sua maneira única, inconformista e audaz, era um humanista que nunca se esqueceu daqueles que não tinham tido a sua sorte na vida em conquistar tudo o que havia a conquistar. Não podia ser salvo das suas próprias trevas, mas trouxe mais luz a um mundo onde o alimento ainda persiste dos poucos símbolos de união e solidariedade, capaz de derrubar muros de intolerância.

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