António Bernardo: “Digital facilita reestruturação das PME”

Sócio da consultora Roland Berger diz que “tempo das fusões passou” e que sucesso das reestruturações das pequenas e médias empresas passa pela digitalização. Acordo com Grupo Carlyle prevê “mil milhões para investir no sul da Europa”, refere.

Quem refletir sobre a evolução do número de empresas portuguesas em processo de reestruturação ou revitalização – uma situação vivida quase na sequência dos processos de insolvência – nota que a cadência destas reestruturações na economia nacional é recorrente ao longo dos anos. “É quase um ciclo vicioso”, comentou ao Jornal Económico (JE) o senior partner responsável mundial da consultora Roland Berger, António Bernardo.

O comentário refere-se aos efeitos da descapitalização das empresas e à espiral de dívidas que acumulam enquanto tentam crescer. Eis os principais constrangimentos vividos pelas empresas portuguesas, identificados há vários anos – mas na entrevista que o presidente da CIP, António Saraiva, deu recentemente ao JE, foi referida uma ‘nova vaga’ na dificuldade das empresas acederem ao crédito bancário, tipificando os efeitos perniciosos desta falta de capitais próprios, situações comuns às “radiografias” que descrevem sobretudo o universo das Pequenas e Médias Empresas (PME) nacionais.

Além disso, as PME portuguesas são confrontadas com novos enquadramentos ainda mais preocupantes. Tratam-se de novidades que podem criar problemas acrescidos à reestruturação clássica de empresas, igualmente relacionados com diversos problemas que agora começam a ser vividos pelos gestores de insolvência, ou também relacionáveis com o potencial insucesso dos recentemente criados “mediadores de recuperação de empresas”. No limite, as novas ameaças, que também são desafios, podem dificultar o êxito dos programas públicos – do IAPMEI – destinados à revitalização das empresas. E porque é que os novos enquadramentos são preocupantes? Porque todo o processo de reestruturação empresarial enfrenta agora uma realidade de mercados que está em muito rápida mutação tecnológica, e que interfere com as próprias medidas de reestruturação aplicadas às PME em dificuldades. Tudo isto arrisca a que as reestruturações em curso se tornem anacrónicas e ultrapassadas por força de novas soluções tecnológicas que entretanto já vingam nos mercados internacionais, lideradas por startups que ascenderam ao estatuto de unicórnios, ou que nasceram de processos de spin-off de grupos tecnológicos ou de polos universitários, ou ainda pelo novo grupo das empresas que lideram a onda das fintech.

Acontece que os apoios financeiros do Processo Especial de Revitalização (PER) – e até as reestruturações que potenciam fusões – são processos ‘pesados’ e com resultados que não chegam tão longe, nem tão rápido como outras propostas de negócios mais dinâmicas que aparecerem nos mercados internacionais. “É verdade que as soluções tradicionais de reestruturações continuam a apoiar muitas empresas, mas o mundo mudou mais depressa do que se previa e agora as empresas procuram um dinamismo maior do que o que é permitido pelos processos de revitalização de empresas”, comenta o líder da Roland Berger. “Hoje, revitalizar e reestruturar empresas já não implica obrigatoriamente cortar custos que ponham em risco a qualidade dos seus serviços e, além disso, para as PME acederem a capital há muitas outras soluções rápidas, sendo igualmente verdade que a moda das fusões já passou, embora possam fazer sentido consolidações internacionais, o que é muito diferente de juntar as estruturas societárias de várias PME nacionais”, adianta o consultor de estratégia.

Quando a reestruturação era um emprego para a vida

Longe vai o tempo em que a gestão de insolvências e a reestruturação de empresas asseguravam empregos quase para uma vida inteira aos gestores que se dedicam a esta área. Aliás, são conhecidos casos de gestores que praticamente se reformaram a trabalhar na restruturação de empresas (por exemplo, no sector dos silos de cereais). Do lado das empresas em dificuldades, é inegável que tendem a recorrer aos programas que apoiam a revitalização empresarial, e fazem-no de forma notoriamente rotinada quando reúnem as condições para ser revitalizadas. A revitalização tradicional transformou-se num processo burocrático a que as empresas em dificuldades recorrem.

Senão, veja-se a evolução que estes processos tiveram nos últimos quatro anos. Tendo como referência as empresas portuguesas listadas na base de dados Racius, nota-se que em 2016, para um universo de empresas ativas da ordem das 671.405 sociedades, encontravam-se em processo de revitalização 9.498 empresas; em 2017, com 672.161 empresas ativas em Portugal estavam em revitalização 8.295 empresas; em 2018, com 698.255 empresas ativas contaram-se 8.541 em processo de revitalização. Em 2019, ainda segundo a base de dados Racius, de janeiro a junho, para um universo de 694.033 empresas em atividade, registaram-se 4.805 empresas insolventes em revitalização, das quais 2.924 são sociedades por quotas e 1107 são sociedades unipessoais.

Porto lidera revitalizações listadas no Racius

Entre este universo empresarial frágil – que reflete a situação em Portugal, no primeiro semestre de 2019 –, na lista das 2.221 empresas em revitalização discriminadas na base de dados do Racius há 478 em revitalização no Porto, 456 em Lisboa, 256 em Braga, 184 em Aveiro, 118 em Leiria, 111 em Santarém, 103 em Setúbal, 98 em Faro e 80 em Coimbra – referindo apenas as cidades com os casos mais numerosos. Relativamente às duas maiores cidades portuguesas, segundo os números do Racius, em 2019 Lisboa tem 176.692 empresas ativas, enquanto o Porto tem 104.815, mas o número de empresas em revitalização, de janeiro a junho do corrente ano, é superior no Porto.

Resta agora saber como se pode solucionar a situação destas PME face à realidade dos mercados em mutação, para serem capazes de enfrentar os desafios das fintech e da tecnologia digital? “Há cerca de uma década, fazia sentido reestruturar o tecido empresarial português maioritariamente composto por Pequenas e Média Empresas (PME) tentando promover fusões entre PME e tentando afinar o seu modelo de negócio sectorial para aumentar a capacidade de resposta e o seu músculo financeiro, para operarem em mercados externos e acelerarem as respetivas internacionalizações”, refere António Bernardo. “Hoje tudo mudou muito depressa com a digitalização dos negócios e das plataformas eletrónicas utilizadas para desenvolver os negócios nos mercados externos, o que retirou sentido aos processos de fusão e à adaptação de diferentes culturas de PME’s a novos modelos de negócio conjuntos, por isso parece-me que os processos tradicionais de revitalização promovidos por programas públicos não devem ficar indiferentes a esta realidade”, aconselha o líder da Roland Berger.

A era das soluções partilhadas

“O grande desenvolvimento do comércio eletrónico facilitou soluções para a falta de escala das PME portuguesas, que hoje já não precisam de ter uma dimensão como a que lhes era pedida há 10 anos para poderem ter sucesso no desenvolvimento de operações internacionais”, diz António Bernardo. Atualmente, a integração da cadeia de valor pode agrupar diferentes empresas independentes, utilizando plataformas logísticas comuns ou infraestruturas tecnológicas que funcionem como market places comuns. “A tecnologia evoluiu muito e continua a ser atualizada e melhorada e permanentemente”, adianta. “Há muitas regiões da Europa onde os empresários e as empresas cooperam em consórcios, ou através de estruturas associativas, designadamente no nordeste de Itália, em Como ou no Veneto, no País Basco e na Catalunha, o que é mais simples e fácil de executar que uma fusão, e permite um salto qualitativo enorme sobretudo quando é necessário adotar novas tecnologias”, refere António Bernardo, esclarecendo que “o sucesso deste novo modelo tecnológico está na partilha de soluções e na sua flexibilidade”.

Quanto à entrada de novo capital, essa será a parte mais simples de um processo de reestruturação empresarial, admite António Bernardo. “Há muita liquidez a nível mundial e isso faz com que haja muitos fundos interessados em investir em empresas médias com modelos de negócio interessantes, que sejam escaláveis; tratam-se de fundos que não apostam nas empresas mais conhecidas; são fundos investidores quase desconhecidos, não estão no grupo dos KKR ou BlackRock, mas andam sempre à procura de empresas onde possam entrar em 30% ou 40% do capital, investem bastante e gostam de manter as estruturas de gestão que conhecem o negócio e os mercados em que atuam”, refere António Bernardo.

Roland Berger procura negócios para Grupo Carlyle

A Roland Berger mantém um acordo de aconselhamento com outro tipo de fundos – no caso, um fundo do Grupo Carlyle –, para o qual seleciona empresas onde há potencial de crescimento, nos mercados do Sul da Europa. “O montante a investir começa nos mil milhões de euros e não tem um limite rígido, pois poderá ser aumentado se forem detetadas oportunidades interessantes em empresas que precisem de capital para crescer”, refere António Bernardo, explicando que atualmente “procura empresas de média dimensão, com faturação na ordem dos 50 milhões de euros”. Outra alternativa é “a revolução digital, a digitalização, que oferece soluções interessantes às PME, facilitando a reestruturação, pois reduz custos e permite melhorar serviços”, comenta.

António Bernardo tem vindo a centrar a sua atividade nos projetos da banca digital, que permitem melhorar o serviço ao cliente, eliminando fisicamente o papel e concentrando a relação do banco com o cliente no que seja do exclusivo interesse do cliente. “É uma mudança de paradigma e o serviço é muito inovador porque só utiliza os smartphones”, diz. Além disso, em Portugal, tem em curso o desenvolvimento da nova estratégia do Turismo de Lisboa.

Quanto à reestruturação de empresas, é inegável que, recentemente, o Governo melhorou o enquadramento legal dos respetivos processos, com o Decreto-Lei nº 79/2017, de 30 de junho. Mas também com a ferramenta eletrónica, disponibilizada pelo IAPMEI, para a empresa efetuar o “Autodiagnóstico Financeiro”, direcionado a empresas não financeiras, em particular às PME, às quais disponibiliza o acesso simples e automático à análise das suas demonstrações financeiras (o balanço e a demonstração dos resultados) relativas aos três últimos exercícios com o objetivo de identificar debilidades no seu desempenho ou no seu equilíbrio financeiro e facultar sugestões de reflexão sobre algumas variáveis dos seus balanços. Da mesma forma foi agilizado o recurso ao Regime Extrajudicial de Recuperação Empresarial (RERE) em paralelo com o apoio do Mediador de Recuperação de Empresas (MRE), que pode intervir em processos no âmbito do RERE, com qualificação técnica e experiência profissional na área da gestão ou da assessoria empresarial, e previamente acreditado pelo IAPMEI.

O IAPMEI explica que “o MRE terá como principal função prestar assistência técnica a empresas em processos de RERE, nomeadamente no quadro das negociações com os seus credores, com o propósito de alcançar um acordo extrajudicial de reestruturação que viabilize a sua recuperação”.

Além disso, o Programa do XXI Governo Constitucional assumiu, entre os seus objetivos essenciais, para o relançamento da economia portuguesa e para a criação de emprego, a redução do elevado nível de endividamento e a melhoria de condições para o investimento das empresas, nomeadamente através da eliminação ou mitigação dos constrangimentos com que estas atualmente se deparam no acesso ao financiamento por capitais próprios ou alheios. A definição destes objetivos do Governo tem subjacente o pressuposto de que o investimento empresarial deve assumir um papel preponderante para assegurar uma recuperação forte e sustentada do crescimento económico.

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