António Ramalho: “Novo Banco não é um jogo político para ser jogado. Não é um ‘Ás’ deste jogo”

António Ramalho criticou especialmente o pedido do Bloco de Esquerda para ser considerada nula a auditoria da Deloitte. Defendeu que o Novo Banco é uma “instituição que pode e deve ser avaliada”, mas não “ser utilizada desta maneira”.

António Ramalho | Cristina Bernardo

“Desapontado”. Foi desta forma que António Ramalho se descreveu face ao Bloco de Esquerda e, em particular, a Mariana Mortágua, deputada que na Comissão de Orçamento e Finanças (COF) e fora dela tem pressionado o exame da gestão do CEO do Novo Banco, e de quem mereceu um sorriso irónico.

“O Novo Banco não é um jogo político para ser jogado. Não é um ‘Ás’ deste jogo. É pura e simplesmente uma instituição que pode e deve ser avaliada, em que o Fundo de Resolução e a administração do Novo Banco devem ser verificadas e percebidas, mas que não me parece que possa simplesmente ser utilizada desta maneira”, disse António Ramalho esta terça-feira, no Parlamento, onde está a ser ouvido pelos deputados sobre a alienação das carteiras de imóveis e créditos detidos por aquela entidade bancária.

Durante a audição, que ocorre uma semana depois de ter sido publicada a auditoria da Deloitte ao Novo Banco/BES, expurgada dos dados considerados confidenciais, depois de questionado insistentemente pela parlamentar, António Ramalho criticou especialmente o pedido do Bloco de Esquerda para considerar nula a auditoria da Deloitte, por o grupo ter assessorado a venda da GNB Vida, num processo que foi desencadeado em 2017 e concluído em 2019.

A Deloitte & Associados, SROC – a entidade independente escolhida para fazer a avaliação determinada pelo Governo em fevereiro de 2019 e que abrange os atos de gestão do BES/Novo Banco entre 2000 e 2018 – num comunicado enviado às redações também afastou qualquer impedimento de realizar a auditoria independente.

No relatório de auditoria, tornado público esta semana no site do Parlamento depois de expurgado das matérias consideradas confidenciais, a Deloitte refere que assessorou a venda da GNB Vida, no capítulo referente à dependência e conflito de interesses, onde concluiu que “não foi identificada nenhuma situação que impedisse ou aconselhasse a não aceitação do trabalho” de análise aos atos de gestão do BES/Novo Banco entre 2000 e 2018.

Relacionadas

Novo Banco: Auditoria à reestruturação da dívida de Luís Filipe Vieira ainda está a decorrer

O Fundo de Resolução pediu uma auditoria específica à reestruturação da dívida de Luís Filipe Vieira, que segundo António Ramalho ainda está em curso.

António Ramalho: “Empréstimo para compra dos imóveis fez subir o preço de venda em 6% a 7%”

A carteira de imóveis que o Novo Banco herdou do BES era “má, velha e ilegal”, disse Ramalho. Má porque apenas 14% era residencial, 43% eram terrenos dos quais uma grande parte agrícola (20%). Era velha porque tinham imóveis com mais de 5 anos (35%), mais de dois terços vinham do BES e tinha 100 imóveis com mais de 20 anos, o que é ilegal porque o banco tem de vender os imóveis em dois anos, segundo os reguladores”, explicou o CEO.

“Eu cumpro a lei com exigência enorme”, garante presidente do Novo Banco

António Ramalho garantiu hoje no Parlamento ter as declarações por parte dos fundos que compraram os ativos e repetiu conhecer os beneficiários últimos. Presidente do Novo Banco deixou uma garantia prática no Parlamento: se houver vendas à pressa ou a partes relacionadas, demite-se.
Recomendadas

Maiores bancos fecham primeiro semestre com menos 240 agências e 1.474 trabalhadores

Os cinco maiores bancos a operar em Portugal perderam 240 agências e 1.474 trabalhadores entre o primeiro semestre de 2020 e o mesmo período deste ano, segundo contas da Lusa com base nos dados divulgados pelas instituições.

Sete anos de resolução do BES: o que foi decidido?

O fim do Banco Espírito Santo foi decretado a 3 de agosto de 2014 por Carlos Costa, ex-Governador do Banco de Portugal. Conheça o que foi decidido nessa data em que o banco central colocou fim à instituição centenária fundada pela família Espírito Santo, considerada a última dinastia de banqueiros em Portugal.

Dos custos do Novo Banco às injeções de milhões. Sete anos depois, o que sobra da resolução do BES?

Os cálculos do Jornal Económico revelam que a capitalização do banco hoje liderado por António Ramalho somam 11.578 milhões de euros.
Comentários