António Sampaio da Nóvoa: “É difícil identificar um património mais importante do que a língua portuguesa”

Comemora-se esta quarta-feira o Dia Mundial da Língua Portuguesa. António Sampaio da Nóvoa, embaixador de Portugal na UNESCO, grande impulsionador desta proclamação, destaca em entrevista ao Jornal Económico o valor único deste património.

Assinala-se esta quarta-feira, 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído em 25 de novembro de 2019 pela UNESCO, numa proclamação subscrita por 193 estados-membros da organização. A iniciativa nasceu de uma proposta apresentada por todos os estados da CPLP: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. António Sampaio da Nóvoa, embaixador de Portugal na UNESCO, foi o grande impulsionador desta proclamação. Em entrevista ao Jornal Económico, o professor destaca o valor único deste património.

Que papel pode desempenhar a língua no desenvolvimento futuro de Portugal?

Falta-nos muitas vezes um pensamento de futuro. A vida corre num curto prazo. Tudo é instante. Nada é pensamento com tempo, projetado numa responsabilidade pelas gerações futuras. Num momento tão dramático das nossas vidas, temos de alargar o tempo. No caso de Portugal, é difícil identificar um património mais importante do que a língua portuguesa. Se o soubermos aproveitar, conseguiremos construir uma presença forte no mundo, num lugar entre o Norte e o Sul, entre culturas e entre regiões. É a partir deste lugar que se pode pensar o desenvolvimento futuro de Portugal.

Em que medida o português pode constituir uma base importante da economia dos oito países que o têm como língua oficial?

A economia tem por base as pessoas. São elas que criam ideias e oportunidades. A pertença a uma comunidade linguística com mais de 250 milhões de pessoas, em crescimento, sobretudo em África, é um “tesouro” ao alcance de poucos. A internacionalização faz-se por círculos de proximidade, seja geográfica, na Europa, seja cultural, nos países da CPLP. A proximidade gera confiança. É a partir daqui que nos abrimos ao mundo. Tudo isto exige condições, incentivos e uma estratégia clara no seio da CPLP. A história deu-nos uma língua comum, diversa, que nos ajuda, e muito, a construir um futuro comum.

Como vê a língua portuguesa no mundo? Que desafios se lhe colocam?

Há dois desafios óbvios, mas não são os únicos. A ciência e o conhecimento, elementos centrais de qualquer programa de desenvolvimento, de inovação e de bem-estar. A comunicação e a conectividade, realidades omnipresentes no nosso dia-a-dia. Por outro lado, notícias recentes deram conta de uma série de genes ligados à criatividade que permitiram a evolução do Homo sapiens. Sabemos há muito que a capacidade de cooperação é uma das grandes vantagens dos seres humanos. Quatro desafios da língua portuguesa no mundo: ciência, comunicação, criatividade e cooperação. Cada um destes desafios precisa de jovens. Com educação. São eles que irão continuar a língua portuguesa.​

Comemorações

A língua portuguesa é falada por mais de 265 milhões pessoas em todos os continentes, sendo a mais falada no Hemisfério Sul. Idioma da primeira globalização da era moderna, está na origem de um grande encontro cultural-civilizacional, com uma marca direta e indireta e influências de muitas outras línguas no mundo. É património comum dos países que a têm como língua oficial e é uma declaração de diversidade em si própria.

As comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa decorrem em todos os países de língua portuguesa e um pouco por todo mundo através das comunidades, com iniciativas nas áreas da Educação, Ciência e Cultura. Em Portugal a UNESCO, em parceria com a CPLP e o Instituto Camões, assinalam a efemérida com um filme evocativo da língua portuguesa como veículo de partilha da cultura e conhecimento nos nove países e nas centenas de comunidades que em todo o mundo falam português. Produzido pela DDB Portugal, será exibido nos vários canais da RTP entre os dias 2 a 8 de Maio, bem como nas redes sociais.

Em Lisboa, a efeméride é assinalada no Instituto de Higiene e Medicina Tropical no Universidade NOVA de Lisboa, com a iniciativa “Ciência em Português” que conta com as intervenções do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, na sessão de abertura, pelas 11 horas, e do ministro dos Negócios Estrangeiros,  Augusto Santos Silva, na sessão de encerramento, pelas 13 horas. Destaque para o lançamento do livro “A Ciência Cura”, como homenagem à imunologista e professora emérita da Universidade do Porto, Maria de Sousa, falecida recentemente.

O livro pretende afirmar-se como uma obra de divulgação do conhecimento, da ciência e da arte através da fotografia, com imagens da fotógrafa Luísa Ferreira. Pelas 14h30 será apresentado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, na presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

O livro resulta da colaboração entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, através da Fundação para a Ciência e Tecnologia, e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda. As fotografias foram recolhidas de abril a junho de 2020, durante a fase inicial da propagação da COVID-19 em Portugal, e retratam a mobilização da comunidade científica na produção e difusão do conhecimento científico e tecnológico, na procura de soluções inovadoras de diagnósticos, terapias e vacinas e no desenvolvimento de novos equipamentos de elevada sofisticação tecnológica e sistemas de proteção individual.

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