Aos arautos da intolerância

Democracia não rima com exclusão, nem com convites insidiosos à auto-exclusão. E é lamentável que haja concidadãos com influência mediática a prestarem-se a esse serviço.

Manuel Carvalho escreve no editorial do Público que “a gaguez da Joacine Katar Moreira é uma realidade com evidentes impactes políticos que só por hipocrisia se pode ignorar”. Esta frase, que serve de destaque, só é neutra à superfície. É inaceitável que se considere que um representante eleito possa não ser plenamente capaz de cumprir o seu mandato por causa de uma incapacidade, qualquer que seja. E é inaceitável que venham outros, para além dos eleitores, fazer-se juízes dessa avaliação.

Não se trata apenas um ataque a uma representante, é um ataque aos valores que fundam a democracia. Basta imaginarmos como seria ter um representante eleito cego — ou surdo, ou mudo — na Assembleia da República. Seria inadmissível que a casa da democracia e dos valores da inclusão não lhe conferisse todos os meios necessários para que pudesse exercer bem o seu mandato.

Democracia não rima com exclusão, nem com convites insidiosos à auto-exclusão. E é lamentável que haja concidadãos com influência mediática a prestarem-se a este serviço, sobretudo em opiniões que comprometem outros, na forma de editoriais em jornais de circulação nacional.

A deputada eleita pelo Livre é gaga. Na opinião do editorialista, sendo gaga, não só não pode manifestar o que no seu entender são imprescindíveis capacidades de oratória, como está condenada à comiseração ou a uma avaliação negativa do seu desempenho. Pior ainda a violência com que conclui: “nem ela o merece, nem a verdade democrática o tolera.”

Pois não sabemos que intolerância é esta de que o editorialista se faz arauto, nem que mandato a democracia lhe conferiu para administrar o juízo da sua intolerância. Joacine Katar Moreira representa não apenas as exclusões que traz consigo e que soube vencer, representa também a força da democracia em vencer as suas barreiras, os seus limites impostos por inércias instaladas, por tabus e conveniências elitistas.

No dia em que a representação democrática se acantonasse na expectativa dos que melhor cumprem um papel estaria a perder a força da representação. Seria um desporto desempenhado por atletas políticos a competir — o que não falta por aí. Só que a democracia, para o ser, deve a todo o momento questionar-se sobre as inclusões que ainda não cumpriu. E as suas instituições tudo devem fazer para ir ao encontro dessa inclusão.

É irónico que Manuel Carvalho, para se permitir elaborar sobre o tema da descapacitação de uma cidadã eleita, se abrigue, com enorme autocondescendência, na afirmação de que numa democracia não há tabus, que tudo se discute. Está errado. Porque o que ele está a discutir são os valores que garantem o próprio funcionamento da democracia: o respeito pela igual dignidade, a inclusão nas suas múltiplas escalas e qualidades. Será que não se dá conta de que é isto que diz um populista: que tudo se discute, que não há tabus, para assim fazer de uma democracia viva um tabu.

Sim, a gaguez de Joacine Katar Moreira tem evidentes impactos políticos. Outros, obviamente outros, daqueles de que escreve o editorialista — que não nos leve a mal se o tomámos de ponta. Apenas fazemos dele representante do que não pode passar sem crítica democrática. Sem tabus.

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