Apple Pay: o princípio do fim do Multibanco?

Será que os clientes não devem controlar que tipo de serviços querem e quando querem usufruir deles, sem ter de pedir autorizações de autorizações?

No passado dia 26 de junho, chegou a Portugal o modelo de pagamentos da Apple. Os bancos nacionais queriam? Não. Em 2017, entraram em Portugal plataformas tecnológicas financeiras, algumas atualmente já com licenças bancárias, como a Revolut. Os bancos nacionais queriam? Não.

Quando estamos perante um movimento de inovação tecnológica, que cria valor claro para o cliente, onde acrescem fenómenos de dimensão mundial (tipo Apple, Google, Facebook, Alibaba, Tencent ou outros), qual é a pior coisa que se deve fazer? Tentar destruir de frente esse movimento. Uma espécie de querer parar um “tsunami” com uma colher!

A SIBS, rede cooperativa dos bancos nacionais, que teve um papel excecional na inovação em Portugal nos anos 80 e 90, neste século XXI tem, de alguma forma, “cristalizado” na inovação e “sentou-se” no monte do seu monopólio criado. E se é compreensível a razão de ser monopólio, face à dimensão do mercado português, esqueceu-se, ou melhor dizendo, os seus acionistas esqueceram-se, que o mundo não para e que a inovação tecnológica tem uma velocidade crescente e, por vezes, exponencial.

A SIBS criou o MBWay, cujo conceito seria uma antecipação, mais fraca (vários bloqueios no processo de adesão, por exemplo) aos modelos internacionais de pagamento, tipo Apple Pay, com uma tentativa de habituação dos clientes, para garantir que o “tsunami” vindo de fora fosse uma “pequena onda”, sem grande impacto.

Mas aquilo que poderia ser a “onda amortecida”, é ajudada pelos próprios bancos a ganhar novamente força e dimensão, quando estes decidem criar taxas sobre o MBWay e a ditar a sua sentença de morte, muito simplesmente porque não se entenderam quanto ao seu modelo de negócio. Teoria de “quem mordeu no meu queijo?”.

Em termos práticos, estamos perante uma necessidade dos bancos nacionais (os poucos que ainda há), ainda a “apanhar cacos” da crise financeira, de terem perspetivas de curto prazo, ao invés de voltarem a pensar no como poderão posicionar-se estrategicamente no futuro. Importa entenderem qual será o papel de um banco daqui a dez ou 20 anos. Perceber se querem “ir contra” um tsunami ou “navegar” a onda da mudança tecnológica e de serviço ao (novo) cliente.

Se uma Revolut em Portugal já tem mais de 25.000 clientes, em dois anos, e se juntarmos outras plataformas como a N26, Lydia e Monese, são já 200.000 contas em fintech em Portugal, como é que os bancos nacionais estão?

Será que uma operação simples de criar uma conta bancária em dois minutos ainda é impossível para os bancos nacionais? Será que criar cartões de crédito em cinco segundos é uma operação pouco recomendada? Será que os clientes não devem controlar que tipo de serviços querem e quando querem usufruir deles, sem ter de pedir autorizações de autorizações, com envio de documentos autenticados?

Inovar e antecipar, sem decisões e contra decisões próprias, é essencial. O mundo financeiro, que sempre esteve habituado a uma manutenção do controlo integral da sua cadeia de valor, está a reagir da pior forma à entrada de novas empresas (fintech e empresas oriundas de outros mercados), fazendo uma tentativa de combate frente a frente, ao invés de aprender,  integrar e transformar as suas arquiteturas tecnológicas em serviços ágeis de negócio.

Agora foi a Apple Pay, mas muito em breve vai chegar o Google Pay, que já tem licença bancária europeia, e veremos as novas gerações a fazer circular todo o dinheiro fora da rede nacional bancária. E quando chegar o Apple Card (cartão tipo Visa), nem quero pensar… Usem e pensem nas vantagens competitivas que têm a seu favor para crescer e não para bloquear o inevitável.

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