Armas de disrupção massiva

A transição comercial, energética e digital encontra-se numa fase relativamente selvagem, em que não existe uma arquitetura institucional capaz de ordenar e canalizar as mudanças que provoca.

A recente reunião do G7 ilustrou claramente as tensões decorrentes do período de profundas mudanças que o mundo, no seu conjunto, está a atravessar. Embora a China não faça parte desse grupo, acabou por marcar presença através das declarações dos principais participantes no encontro, dado o seu protagonismo nas questões mais críticas.

De forma simplificada, os três eixos que estão a polarizar estas mudanças globais são o comércio, a energia e a digitalização. A simultaneidade e a profundidade da transformação em cada um desses vetores justifica os sentimentos de desorientação e crispação que muitos dos principais líderes mundiais estão a transmitir neste momento.

No âmbito comercial, estamos a evoluir de um mundo aberto e multilateral, “plano” na terminologia mais moderna, para uma arquitetura de intercâmbios pretensamente bilaterais, mas que parecem enfrentar grandes desafios para a sua concretização. As recentes ameaças de não ratificação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul; a escalada de tarifas entre os EUA e a China e a dificuldade de fechar um acordo aceitável para todas as partes envolvidas no Brexit são exemplos significativos dessas dificuldades.

No âmbito energético e ambiental, estamos a assistir a uma escalada de tensões decorrente da luta pelos recursos existentes em geografias improváveis até há pouco tempo, como o Ártico ou a Gronelândia. O impacto global da crise na Amazónia, que produz vinte por cento do oxigénio do mundo; e a profusão de fenómenos naturais e climatéricos erráticos, desconcertantes para quem que já tem vivido muitos verões, ilustram o impacto global de um crescimento económico sem limites e com base em energias poluentes.

Finalmente, as tecnologias digitais constituem a principal novidade no cenário das disputas entre as principais potências, que já habituaram o resto do mundo a confrontos comerciais e energéticos durante as últimas décadas. A tecnologia passou a ser um sujeito político como consequência da sua profunda capacidade transformacional. As estratégias tendentes a adquirir vantagem nos desenvolvimentos tecnológicos relativos à gestão de dados e à nuvem nos EUA, à fibra na Europa e ao 5G na China estão a provocar tensões inimagináveis há poucos anos, como consequência das aplicações militares de cada uma destas tecnologias.

Esta tripla transição comercial, energética e digital encontra-se numa fase relativamente selvagem, em que não existe uma arquitetura institucional capaz de ordenar e canalizar as mudanças que provoca, o que nos condena a padecer um futuro que não estamos a saber construir.  Cada novo progresso tecnológico revela de forma mais clara a nossa incapacidade social para o enquadrar e, por isso, o resultado final desta transição será necessariamente incerto e perigoso.

Neste cenário, as tarifas à importação, os incêndios florestais e as listas negras de empresas tecnológicas estrangeiras têm-se transformado nas novas armas de disrupção massiva, infelizmente cada vez mais nas mãos de governantes aparentemente pouco qualificados.

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