“Arresto de bens de Isabel dos Santos é uma gota de água no oceano”, diz economista Alves da Rocha

Manuel Alves da Rocha, diretor de Estudos Económicos da Universidade Católica de Angola explicou em Lisboa que o arresto de bens da empresária poderá ser uma gota de água em dois sentidos: em relação às enormes necessidades de financiamento do país e ao desconhecido valor total que saiu de Angola ou foi retirado ilegalmente do Estado.

O valor dos bens arrestados pelo Estado angolano a Isabel dos Santos no final do ano passado poderá representar “uma gota de água” em relação às necessidades de financiamento de uma economia em recessão e face ao valor que poderá ter sido retirado ilegalmente dos cofres públicos e do país, afirmou o economista angolano Manuel Alves da Rocha.

“Esta situação do arresto de bens tem sido interpretadas internacionalmente como um ato de coragem [do presidente João Lourenço], mas se calhar é uma gota de água no oceano, porque ninguém sabe exatamente qual ou quanto é que é o oceano”, explicou Alves da Rocha esta quarta-feira, à margem da cerimónia de lançamento de livro ‘Angola, dois olhares cruzados’, que escreveu em parceria com o economista Manuel Ennes Ferreira.

“Ninguém ainda hoje conseguiu dizer qual o montante, o valor dos bens ou dinheiro que saiu do país ou foi retirado ilegalmente ao Estado”, vincou o Diretor e Coordenador do Departamento de Estudos Económicos da Universidade Católica de Angola.

“Na situação concreta de Isabel dos Santos, ao falar-se em 1.100 milhões de dólares que foi atribuido aos bens que foram arrestados, evidentemente que é uma gota de água”, adiantou. “O que sabemos é relativo às necessidades de financiamento da economia, e as necessidades são enormes, não são mil milhões de dólares, podem ser anualmente à volta dos 10 ou 15 mil milhões de dólares para repor o funcionamento da economia”.

Razões políticas?

Alves da Rocha recordou que desde que chegou à presidência em 2017, sucedendo a José Eduardo dos Santos, João Lourenço está “embrenhado” num processo de reformas do qual faz parte o combate à corrupção.

“O foco essencial dele, do ponto de visto político é a reforma instituicional, tem a ver justamente com a melhor transparência, a alteração da postura de algumas instituições públicas”, explicou o economista. “O foco tem sido este, só que não sei até que ponto este processo de arresto dos bens de Isabel dos Santos não teve a intenção de certa maneira ser um fait divers relativamente à grande crise económica e social que Angola vive”.

Isabel dos Santos tem alegado que o arresto faz parte de uma ‘caça às bruxas’ que visa a família do ex-presidente e que serve para ‘mascarar’ a crise económica.

O economista da Univerisadade Católica de Angola referiu que há razões políticas para ações de João Lourenço em relação à família do antecessor.

“Naturalmente João Lourenço pretende posicionar-se dentro do partido com força. E há análises que são feitas que dão conta de alguma discrepância sobre o poder que João Lourenço tem no governo e o poder que tem no MPLA, que são poderes desequilibrados”, disse.”É natural, porque o MPLA ainda tem toda a gente, ou maior parte das pessoas que ainda vêm da presidência partidária de José Eduardo dos Santos.

Numa entrevista à RTP3 transmitida esta quarta-feira, Isabel dos Santos admitiu a possibilidade de se candidatar à presidência de Angola.

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