As bodas de Caná e as moratórias bancárias

Em Março do próximo ano muitas empresas já cá não vão estar, pois terão entrado em insolvência, e muitos trabalhadores terão perdido o seu trabalho. Não, não vai ficar tudo bem.

Esta crise pandémica que há vários meses o mundo está a viver e, particularmente o nosso país, acabou por gerar várias consequências a nível geral, e a nível particular para as empresas e famílias.

No caso das empresas, na fase inicial, grande parte teve de parar por completo a sua produção e, no que diz respeito aos seus trabalhadores, alguns acabaram no lay-off, ao passo que outros acabaram mesmo dispensados.

Ora, nessa altura decorriam (e decorrem ainda) muitos contratos de financiamento (sob várias formas) para as empresas alavancarem o seu processo produtivo, e do lado das famílias ou dos clientes particulares, decorriam (e decorrem) empréstimos múltiplos, que vão desde o crédito hipotecário, crédito automóvel, crédito ao consumo, cartões de crédito, etc..

Se as empresas não produziam e se os trabalhadores não recebiam salário ou, recebendo-o, não o auferiam na totalidade, existia desde logo um grande problema para a banca – via-se a braços com um conjunto vastíssimo de incumprimentos, que levaria à constituição de provisões e à respectiva amputação dos seus resultados líquidos.

O Governo, percebendo o problema social e de equilíbrio financeiro que tal situação compaginava, logo se apressou (e penso que bem) a negociar com a banca um plano de moratórias sobre o crédito concedido, plano esse que foi recebido de braços abertos por todas as partes. A ideia inicial era não exigir o serviço da dívida aos mutuários até este mês de Setembro, pensando o Governo que a situação estaria resolvida até agora.

E é aqui que se abre a visão das Bodas de Caná – o vinho acabou-se, o milagre da transformação da água em vinho tinha lugar, e o segundo vinho acabaria por ser melhor até que o primeiro. Isto é, passado o período da moratória, todos iriam ficar em condições de voltar a pagar o seu serviço da dívida, revigorados pela excelsa ajuda da banca. Nada de mais errado!

Não só a moratória teve que ser alargada – até Março de 2021 – como não vai ficar tudo bem.

Chegará Março do próximo ano e muitas empresas (especialmente as mais pequenas) já cá não vão estar, pois terão entrado em insolvência, particularmente aquelas que se localizam em sectores mais atingidos (ex: turismo e restauração), mas também muitos trabalhadores terão perdido o seu trabalho e não conseguirão solver e honrar as responsabilidades creditícias anteriormente assumidas.

A banca teve aqui um balão de oxigénio sobre as suas contas. Ninguém duvide que a não existir a moratória, a banca não iria sofrer com as provisões que teria que gerar – sempre é melhor adiar que entrar desde logo em descontos”.

Assim, a moratória não foi mais do que um “chutar para a frente” estes problemas. Não quero dizer que a mesma não tenha sido oportuna em certas situações, mas, no geral, afigura-se-me que não conseguiu transformar a água em vinho, tão-pouco conseguiu afirmar-se como melhor vinho (melhor solução) que o primeiro, tal como nas Bodas de Caná.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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