As corporações e a defesa da biodiversidade

Há uma maior visibilidade na sociedade civil sobre boas práticas das grandes empresas, sobretudo no que diz respeito ao abuso da utilização dos recursos do planeta, e cada vez mais essa perceção tem vindo a ganhar importância pelo conjunto de riscos reputacionais e de litigância com as comunidades.

“A preservação da biodiversidade não é apenas uma tarefa dos governos. As organizações internacionais e não governamentais, o setor privado e cada indivíduo têm um papel a desempenhar na mudança e no fim de padrões destrutivos de comportamento.”Kofi Annan, 2015

A pandemia trouxe consigo um efeito acelerador sobre algumas tendências de longo prazo, que agora parecem estar a conquistar um caráter mais definitivo. Um destes efeitos está relacionado com a relevância da sustentabilidade ambiental e da descarbonização, que conquistaram um papel absolutamente fulcral para as próximas décadas.

À medida que os governos e instituições como a Comissão Europeia começaram a anunciar planos de recuperação estruturais para as próximas décadas, no fundo uma grande transição económica pós-Covid, começou a ficar patente que grande parte desta transformação irá assentar no desenvolvimento de projetos, tecnologia e iniciativas ligadas à sustentabilidade ambiental.

Por outro lado, sabemos que esta agenda global das nações colidiu no passado com os objetivos naturais das corporações, que procuram maximizar os retornos financeiros dos seus investidores. Pelo que é legitimo perguntar se existem razões para acreditar se as corporações poderão ser promotoras da mudança estrutural ambiental.

A perceção sobre os problemas ambientais é hoje maior e comporta riscos reputacionais e da atividade. Existe à partida uma maior visibilidade na sociedade civil sobre boas práticas das grandes empresas, sobretudo no que diz respeito ao abuso da utilização dos recursos do planeta, e cada vez mais essa perceção tem vindo a ganhar importância pelo conjunto de riscos reputacionais, e de litigância com as comunidades, que pode trazer também para os seus investidores.

Mas os danos morais e reputacionais não são os únicos riscos existentes. Afinal, as corporações e indústria são inerentemente dependentes da natureza, da qual obtêm os recursos para produzir os seus produtos e serviços. Ou seja, as suas escolhas operacionais criam a médio prazo impactos diretos e indiretos nos recursos naturais que podem vir, por sua vez, a afetar de forma estrutural a sua atividade. Ao evitarem agir sobre a sustentabilidade desta dependência e do seu impacte sobre recursos e biodiversidade, estas ficam expostas a riscos materiais que afetam os lucros e os interesses dos seus acionistas.

A exposição ao risco é elevada. De acordo com o relatório “New Nature Economy”, elaborado em janeiro de 2020 pelo Fórum Económico Mundial, cerca de metade da economia mundial (medida pelo PIB em 44 triliões de dólares) encontra-se dependente de forma moderada ou elevada da natureza e do seu ecossistema de biodiversidade. Este fator representa, só por si, um alerta poderoso para que as corporações comecem a agir, no sentido de implementar medidas contra as alterações climáticas e a deterioração da biodiversidade.

A acentuada, mas pouco visível crise na biodiversidade global também condena as empresas

Olhando para os números disponibilizados pelo relatório do Fórum Económico Mundial, existem razões que evidenciam que a deterioração do ecossistema de recursos naturais do planeta tem sido muito acentuada nos últimos 50 anos. Desde 1970, o número relativo à vida selvagem no planeta caiu 68%, enquanto 33% das espécies marítimas se encontram em situação de pressão de sobrevivência devido a excesso de exploração dos sectores das pescas.

Por último, 75% da desflorestação tropical está a associada à indústria e exploração de matérias-primas, como a soja e o óleo de palma, entre outros produtos florestais. A gestão do parque florestal mundial assume particular importância, se tivermos em consideração que se trata de um sector onde ainda existe bastante complexidade no que respeita à implementação de medidas de controlo florestal – estima-se que 43% das empresas mais influentes da cadeia de valor ainda não terão atualmente qualquer protocolo de sustentabilidade ambiental estabelecido que mitigue o efeito de desflorestação decorrente da sua atividade.

O incentivo do mercado e dos investidores pode influenciar tendências o sucesso das estratégias ESG

Na perspetiva do investidor, nos últimos anos temos visto um nível recorde de envolvimento de fundos de investimento com temas e projetos de sustentabilidade.

De acordo com o relatório de julho da Global Sustainable Investment Alliance, entre 2016 e 2020, as estratégias de investimento sustentável registaram um aumento de 54% dos ativos sob gestão, representando hoje cerca de 36% dos ativos geridos de forma profissional a nível mundial.

Isto significa que, numa conjuntura em que a profunda deterioração da biodiversidade – que coloca em risco de forma moderada, ou elevada, mais da metade da riqueza criada a nível mundial – o processo de integração da proteção da biodiversidade aos deveres fiduciários de investidores institucionais e gestores de ativos aumenta de significado, e pode ajudar a mudar comportamentos predadores.

A esta alteração profunda dos padrões de investimento estão associados dois catalisadores relevantes. O primeiro é a crescente evidência de que as empresas que cumprem os critérios de sustentabilidade relativamente ao Ambiente, ao impacte Social e aos valores comunitários e da governança das empresas, ou seja, que cumprem os critérios ESG (Environmental, Social, Governance) tendem a entregar melhor retorno financeiro aos investidores.

Estas empresas, como explorei num ensaio publicado aqui em dezembro passado (“A ascensão dos mercados financeiros ‘bonsai’”) conseguem, tradicionalmente, obter um desempenho financeiro melhor num período de longo prazo, que incluem uma gama variada de métricas importantes, como o crescimento do volume de negócios, no retorno sobre o património líquido (ROE), ou na remuneração sobre o capital investido (ROIC), apresentando inclusivamente desempenhos operacionais acima da média do sector e principais comparáveis de mercado.

Uma análise produzida pelo RBC Asset Management, em 2016, evidenciou que as empresas ou projetos de investimento que se encontram num quartil superior em termos de métricas, de acordo com os critérios ESG, oferecem maior retorno de caixa sobre o capital investido e esses retornos também tendem a ser sustentados por mais tempo. As empresas no primeiro quartil de critérios ESG no estudo considerado, em dez anos, apresentaram um crescimento cerca de 40% mais rápido do que a média do seu sector nesse mesmo período, e foram capazes de distribuir mais dividendos que os comparáveis da indústria.

O segundo grande catalisador está efetivamente ligado a uma crescente incorporação das variáveis ligadas à sustentabilidade da biodiversidade nos critérios de investimento ESG, que se traduz em maior regulação para empresas e investimentos. E aqui existe uma grande proatividade da União Europeia (UE), em termos de nova legislação e regulação no que diz respeito à sustentabilidade e critérios ESG.

A nova taxonomia da UE para sustentabilidade financeira e o quadro regulatório da sustentabilidade no sector dos serviços financeiros (SFDR) são alguns exemplos visíveis da integração dos problemas da biodiversidade na agenda económica, a qual depois se enquadra no documento de estratégia europeia para 2030 para a biodiversidade, que representa uma parte relevante do pacto ecológico europeu, cujo objetivo é travar a deterioração do ecossistema e as perdas ambientais, e colocar a biodiversidade da Europa numa trajetória de recuperação até 2030, com metas e compromissos específicos.

‘Bottoms up’: a biodiversidade no centro da estratégia corporativa

Existem várias alterações de paradigma que o ciclo pós pandemia trouxe, e a forma como as alterações climáticas e a relação entre corporações, investidores e recursos naturais está a mudar. Para que isso aconteça são as corporações que devem tornar-se no bastião da gestão sustentável da biodiversidade, que atravessa uma crise profunda, mas menos visível que a ameaça das alterações climáticas. Mas estas são as principais interessadas, e essa perceção começa a ganhar dimensão.

As empresas têm uma relação de mão dupla com a natureza, e as empresas começam agora a avaliar as suas dependências e impactos na natureza. Por exemplo, a utilização de matérias-primas das florestas é um exemplo de dependência e impacto na natureza, pelo que representa um risco real para as empresas.

Aliás, cerca de metade da economia mundial está exposta ao risco da sobreutilização de recursos naturais. Isto significa que a deterioração dos recursos e do ecossistema da natureza constitui um real risco sistémico que deve ser encarado como tal pelos diversos stakeholders (governos, instituições, empresas, entre outros), e os sinais que vão sendo dados quer pelo quadro regulatório e de incentivos financeiros, quer pelas tendências definidas pelos investidores no mercado financeiro (onde o investimento sustentável, ou ESG, tem vindo a mostrar-se rentável e preponderante) mostram que a mudança de paradigma pode estar a caminho.

Afinal, se é rentável para as empresas, se gera melhores lucros para os investidores e se constitui um fator positivo para a sustentabilidade do planeta, há alguma razão para não estar no centro da estratégia corporativa?

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