As eleições no Brasil e os mercados financeiros

Até que ponto o otimismo revelado pelos mercados perante um candidato de extrema-direita compensa todos os retrocessos que terão lugar a nível social e político?

O Brasil encontra-se numa situação complicada, tanto a nível político e social, como económico, resultado da crise em que o país se encontra mergulhado. As eleições são a resposta sobre o rumo que os cidadãos brasileiros querem ver o país seguir. Com dois candidatos, Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), de ideais e valores completamente diferentes e depois de uma primeira volta mais renhida do que era esperado, as sondagens prevêem uma vitória sem dificuldades de Jair Bolsonaro na segunda volta das eleições, já no dia 28 de Outubro.

Depois de Bolsonaro ter atingido na primeira volta uma percentagem de votos superior à esperada, os mercados reagiram de forma positiva e imediata. Logo na segunda-feira, dia 8 de Outubro, o Ibovespa (Índice da Bolsa de Valores de São Paulo) terminou o dia com uma valorização próxima dos +5%, a qual também se reflectiu de forma expressiva em fundos de investimento que valorizaram perto dos 8% no mesmo dia, como é o caso do MOAT Capital FIA.

Esta valorização dos fundos de investimento já vinha, no entanto, a ser sentida desde a semana anterior às eleições, como reflexo das expectativas do mercado em relação à possível vitória de Bolsonaro logo na primeira volta das eleições.

Nesta mesma onda de optimismo e valorização encontra-se, também, o real brasileiro face ao dólar americano. Depois de uma enorme desvalorização do real face ao dólar americano, a partir de meados de Agosto, o mês de Outubro tem sido um mês de optimismo para os investidores, fazendo o par BRL/USD valorizar, especialmente depois da primeira volta das eleições.

Este cenário revela uma preferência por Bolsonaro da parte dos investidores, que resultará da possível nomeação do economista Paulo Guedes para ministro da Economia/Finanças. Paulo Guedes está actualmente a ser investigado por suspeita de fraude, no entanto, a crença de que este irá incentivar as privatizações e a reformulação do sistema fiscal e de pensões não tem abalado tanto o desempenho do real brasileiro e do Ibovespa como seria de esperar.

Apesar de tudo, este estado optimista dos mercados não vai durar para sempre e dependerá muito do rumo que o candidato eleito der às políticas económicas. De um lado temos um candidato do Partido dos Trabalhadores, que apresenta uma ideologia democrática, e do outro um candidato do Partido Social Liberal, que apresenta uma ideologia nacionalista e conservadora, apesar do liberalismo económico.

Resta saber até que ponto o optimismo revelado pelos mercados perante um candidato de extrema-direita compensa todos os retrocessos que terão lugar a nível social e político, face a um candidato que, apesar de não ter o mesmo apoio da parte dos investidores, revela ideais mais democráticos e passíveis de serem aceites no século XXI.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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