As falácias do terrorismo religioso

A primeira falácia do terrorismo religioso é logo a designação. Mais do que falar de terrorismo religioso, talvez se imponha falar de terrorismo político que invoca motivos religiosos.

O mundo vive, desde 1979, ano em que uma revolução no Irão colocou no poder o aiatola Khomeini, na quarta fase do terrorismo global. Um período designado como terrorismo religioso, atendendo a que os principais grupos terroristas – Daesh ou Estado Islâmico, Al Qaeda, Boko Haram, Hezebolla – afirmam estar a combater em nome do Islão. Uma falácia, porque muitas das vítimas desses terroristas também acreditam em Alá e no Livro, Corão, que inspirou ao seu Profeta.

De facto, a maior parte dos atentados terroristas ocorrem em países onde o islamismo é a religião oficial e/ou a maioria da população professa essa fé. Como o Índice Global de Terrorismo 2017 mostra, em 2016, cinco desses países – Iraque, Afeganistão, Síria, Nigéria e Paquistão – foram responsáveis por três quartos das 25.673 mortes provocadas pelo terrorismo dito religioso. Talvez porque os terroristas se tenham esquecido de ler as passagens do Corão que proíbem o assassinato dos irmãos na fé e os ataques às mesquitas.

O islamismo violento assume três modalidades. A primeira procura destituir o governo, ainda que muçulmano, de um país e substituí-lo por outro que coloque em vigor a sharia. Daí que os terroristas se autoconsiderem os verdadeiros muçulmanos. A segunda deseja conquistar territórios que considera serem sua pertença histórica, mas que estão nas mãos dos infiéis. Territórios onde, após a conquista, passará a vigorar a lei islâmica. A terceira aponta para o pan-islamismo, pois pretende defender a comunidade muçulmana, a Ummah. Uma perspetiva onde é nítida a dimensão global do problema, uma vez que assenta no estabelecimento de redes de solidariedade que ignoram as fronteiras. Esta caraterística permite a passagem para outra falácia.

Assim, os grupos terroristas fazem passar a mensagem que o mundo islâmico enfrenta uma guerra santa porque o Ocidente declarou guerra ao Islão. Uma estratégia destinada a obter a adesão das populações. Crentes que passam a encarar o martírio não como sacrifício, mas como honra. A garantia do respeito da comunidade e da recompensa que Alá lhes reserva na outra vida.

Face ao exposto, não parece abusivo afirmar que a primeira falácia do terrorismo religioso é logo a designação. Na verdade, mais do que falar de terrorismo religioso, talvez se imponha falar de terrorismo político que invoca motivos religiosos. Uma clarificação concetual que não deixa de remeter para a perigosidade resultante do recurso a entes sobrenaturais para arbitrarem o relacionamento entre humanos.

Cada uma das fases anteriores do terrorismo global – anarquista, anticolonialista e nova esquerda contestatária – durou cerca de 40 a 45 anos. A fase atual será seguramente mais longa. Cada derrota no terreno será seguida de dispersão dos jiadistas e da criação de novos santuários.

Santuários que, ao contrário daquilo que o nome poderia sugerir, não se destinam à jiade maior – al-jihad al-akbar. Aquela que procura a paz interior e a luta contra os defeitos próprios. Os terroristas recorrem à jiade menor – al-jihad al-ashgar. Matam por fanatismo e em nome de interesses políticos.

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