As ferozes redes sociais

Achávamos que a Internet nos ia ajudar a comunicar sem limites e a fomentar o ultrapluralismo de opiniões, mas pode acabar por nos encapsular em grupúsculos de ideias fechadas.

A beligerância dos debates nas redes sociais está a aumentar. Um dos motivos mais evidentes desse aumento de tensão é a utilização irresponsável que alguns políticos fazem desses foros para inflamar a opinião pública em tempo real, transformando-os em simples palcos digitais para a disputa de poder. Mas quando essa agressividade ameaça emudecer a livre opinião nas mais diversas matérias, adquire um caráter estruturalmente mais preocupante.

A censura digital das massas ameaça silenciar-nos a todos porque acobarda a expressão do pensamento independente. À diferença do passado, esta censura deixou de ser uma prática própria de estados totalitários e está a passar a ser sistematicamente praticada por grupos mais ou menos anónimos, que defendem de forma impune ideologias ou interesses corporativos, desportivos, sexuais ou de qualquer outra índole.

Nesse âmbito, as opiniões contrárias à causa são automaticamente interpretadas como ofensas e provocam irremediavelmente o linchamento público e frequentemente teatralizado dos dissidentes, até transformar o debate de ideias num puro entretenimento para regozijo das massas. De forma progressiva e inconsciente, as pessoas parecem delegar o conhecimento nestas comunidades, o que as leva a defender opiniões radicais sobre questões que desconhecem profundamente.

Como em tantos outros processos de mudança social, a criação destes grupos de pensamento homogéneo é facilitada pela tecnologia. Assim, o agrupamento dos intervenientes nas redes sociais é feito de forma automática, através de algoritmos que tendem a aproximar as pessoas afins e a limitar a sua exposição à pluralidade de opiniões.

Curiosamente, a diversidade parece ser um valor tão procurado no mundo no mundo físico das empresas como desprezado no mundo virtual das redes sociais. Dessa forma, as tecnologias digitais que facilitam este tipo de interações até poderão estar a construir fábricas ou cidades progressivamente mais inteligentes, mas à custa de cidadãos com cada vez menor talento comunicacional.

A Internet não é grátis. Nada é grátis. Achávamos que nos ia ajudar a comunicar sem limites e a fomentar o ultrapluralismo de opiniões, mas pode acabar por nos encapsular em grupúsculos de ideias fechadas, dominados por indignados sistemáticos. Por isso, é preciso diferenciar o que a digitalização poderia fazer pela sociedade e o que está efetivamente a fazer, de forma a procurar coletivamente limites e remédios, particularmente em situações e ambientes dominados pela emoção.

 

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