As ‘fintech’ orientam o rumo da banca

No horizonte está o objetivo de oferecer, a custos reduzidos e graças à contribuição de tecnologias, serviços financeiros líderes, funcionais e muito mais ágeis do que foi feito até agora.

No final de todo o caminho que a banca percorreu para recuperar a eficiência e a perda de rentabilidade, surge o modelo e a proposta de valor das empresas de fintech. Estes foram entendidos por algumas das entidades financeiras mais importantes de Portugal e do mundo, que começam a olhar seriamente para os representantes de inovação tecnológica dentro do setor financeiro, bem como a pensar em fechar acordos estratégicos com os mesmos. O setor bancário em Portugal está a começar a deixar de ver as fintech como uma ameaça e a passar a encará-las como uma oportunidade.

Em alguns casos, a colaboração tem como objetivo principal que as fintech prestem serviços nos segmentos específicos em que não competem com a banca. E que, além disso, proporcionem eficiência e capacidade de gerar negócios. Para além dessa função sinérgica ou complementar, o setor bancário está também a começar a tornar-se uma das principais fontes de financiamento para as fintech, como parceiro e coprotagonista nesta nova etapa da revolução digital no setor financeiro.

É a reação esperada de um setor que, depois de ter sido a ponta da lança da inovação tecnológica por muitos anos – há quem se refira aos bancos como as primeiras fintech, lembrando os fortes investimentos feitos em tecnologia no final dos anos 90 e início dos anos 2000 –, foi apanhado em contrapé com a mudança para o novo paradigma digital. Ou seja, com estruturas corporativas fortes e pesadas, bem como as naturais consequências de uma crise económica e financeira, que impôs uma longa era de baixas taxas de juro, pesando na sua rentabilidade.

Como se tal não bastasse, a nova regulação existente é um grande catalisador para o setor fintech. Normas como a PSD2, já em vigor, não só terminam com o monopólio que os bancos tinham na gestão da vida financeira dos clientes, como também permitem que as fintech acedam aos dados dos mesmos, desde que estes o autorizem. Estamos perante uma nova estrutura, que favorece extraordinariamente a concorrência e que vai transferir a batalha pelo negócio financeiro para o campo dos dados, que é o epicentro da revolução digital.

As fintech trouxeram algumas vantagens fulcrais para o ecossistema financeiro: não só oferecem processos mais ágeis, simples e transparentes, resultando em eficiência e ajuste de custos operacionais, mas também acrescentam o objetivo de oferecer mais valor ao cliente, conhecendo melhor as suas necessidades e personalizando os seus produtos e serviços. Isto significa que a contribuição de valor das fintech atua tanto na vertente da redução de custos como na de reforçar o percurso da renda. No centro desta nova abordagem estão os dados: a capacidade de processar, analisar e usá-los de maneira inteligente no mundo dos negócios.

A convergência entre a banca e as fintech, além dos fatores mencionados, também está a ser estimulada por uma mudança vertiginosa nos hábitos dos clientes bancários nos últimos anos, consequência do grande desenvolvimento da Internet e da tecnologia móvel.

Os bancos passaram a colocar limites em certas operações básicas nas agências bancárias e transferiram-nas para as plataformas online, focando-se nas transações de maior valor agregado. O que, paralelamente, significou a transformação da própria cultura bancária e o perfil dos seus profissionais, agora convertidos em gerentes personalizados. De certa forma, é um modelo que algumas das fintech de maior sucesso já tinham adotado, muito focadas em nichos de negócios, nos quais possuem profundo conhecimento e experiência, adicionando-lhe a tecnologia, para agilizar processos e fornecer atenção personalizada aos clientes.

O resultado deste processo de transformação é uma redução significativa na rede de bancos comerciais e uma transformação do próprio negócio bancário, que tem adotado as fórmulas de trabalho do setor tecnológico para ser mais flexível, com o objetivo de encurtar os tempos de execução dos processos e melhor atender as necessidades dos clientes.

Estamos, assim, perante um processo de osmose entre a banca tradicional e o modelo representado pelas empresas fintech, que acabará por transformar verdadeiramente o setor financeiro. No horizonte está o objetivo de oferecer, a custos reduzidos e graças à contribuição de tecnologias, serviços financeiros líderes, funcionais e muito mais ágeis do que foi feito até agora. Além disso, a possível aprovação de uma sandbox, que deve permitir a inovação no setor financeiro sob o controle de entidades de supervisão, pode ser um importante acelerador para mais mudanças.

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