As lições dos Açores

As eleições regionais desferiram, com surpresa face às sondagens, um enorme murro no estômago do poder vigente em Portugal, o do PS de António Costa.

1. Os Açores são o primeiro grande desafio político de António Costa e do PS depois de 2015. Antes disto, só questões sociais, como os incêndios de Pedrógão e a atual pandemia de Covid-19, tinham questionado o funcionamento da geringonça de esquerda – e do que dela restou. Agora, finalmente, os portugueses colocaram, fruto da sua vontade expressa pelo voto, um desafio novo e com dimensões muito interessantes.

Cito a primeira (dimensão): a hipocrisia e incoerência das declarações com que o PS acolheu a perda da maioria absoluta.

Há cinco anos, a coligação PSD/CDS não ganhara, na perspetiva socialista, as eleições legislativas porque, apesar de ter ficado à frente em votos, não conseguira os mandatos suficientes para governar. Era uma tese, uma forma de ver perfeitamente admissível face à essência do processo de constituição de um governo determinado pela Constituição da República.

E, no entanto, o PS discursou na noite do passado domingo, através de António Costa e Vasco Cordeiro, como se as palavras de 2015 não tivessem sido proferidas. Tratou os portugueses como gente a quem tanto se pode servir palavras como palha. Tudo depende.

Melhor esteve Rui Rio que, substantivamente, se referiu ao PS como tendo ganho porque teve “mais votos”. Ou seja, com outro líder, o PSD manteve a mesma forma de olhar para os resultados eleitorais. O que esses mesmos resultados podem implicar é algo a ver-se na fase seguinte.

2. Nos Açores/2020, aplicando a lógica socialista entretanto abandonada, também não teria havido vencedor, uma vez que o processo de formação do executivo ficou em suspenso, com oito partidos dividindo os 57 lugares parlamentares, abrindo até mais portas à direita, cujo número de deputados somados, 29 (PSD/CDS/PPM/Chega/IL), excede os do PS com o BE (27, de 25+2). (Resta o PAN, com um deputado).

O número mágico que dá maioria, 29, é mais provável para a direita do que para a esquerda, a não ser que o CDS viesse a coligar-se com o PS, o que já aconteceu no passado mas seria suicídio agora, pelo menos à luz da dinâmica nacional.

3. Se a lógica política se impuser, o PS vai sofrer uma derrota, perder o governo dos Açores.

PSD/CDS/PPM/IL têm uma base mais ou menos sólida (27) para negociarem com Chega (2) e PAN. Se o PAN votar com a direita, a abstenção do Chega é suficiente e é provavelmente a melhor opção para todos. Para a direita porque evita, por enquanto, o incómodo de negociar com o polémico partido de André Ventura; e para este porque evita, antes de tempo (as legislativas nacionais, e até as presidenciais), de se comprometer com o exercício do poder. Ser antissistema capitaliza.

A geometria partidária não é totalmente tranquilizadora para qualquer dos lados, mas a única forma de evitar novas eleições será a direita entender-se. E há aqui um aliciante extra: concretizar a primeira grande derrota do PS de António Costa, embrenhado na difícil negociação do Orçamento do Estado e na gestão da crise de saúde.

Os Açores desferiram, com surpresa face às sondagens, um enorme murro no estômago no poder vigente em Portugal.

4. A lição final dos Açores é que não há que ter medo de papões. Em democracia, todos os partidos devem ser avaliados à luz do texto constitucional. Se os comunistas (varridos pelos açorianos da assembleia regional) se puderam tornar um partido democrático aos olhos dos portugueses, tal como o extremismo reagrupado no BE, não há nenhum outro partido, neste preciso momento, que mereça desconfiança. Além do mais, o eleitor estará sempre cá para avaliar.

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