Às vezes, não fazer nada é o mais difícil

Alguma vez pensou que a decisão de não se pronunciar foi pensada, estrategicamente, devidamente ponderada e com um determinado propósito? Para fomentar a discussão pública, por exemplo, ou por outra razão.

Quantas vezes já não nos confrontámos com a ausência, aparente, de decisões ou tomada de posição por parte de um líder, seja ele político ou de uma empresa? Já contaram as vezes em que se encontraram nesta situação e criticaram a figura em causa devido à sua atitude?

Nos últimos meses habituámo-nos, muito por culpa da pandemia, a responsabilizar diferentes intervenientes porque diziam determinada coisa num sentido ou noutro ou, noutras alturas ainda, porque se mantinham calados, provocando um silêncio ruidoso.

O Presidente da República pode servir de exemplo prático – é apenas um em muitos possíveis – que ajuda a ilustrar estas situações. Já o vimos aparentemente ausente a respeito da decisão do Governo sobre o confinamento, ou até por causa da realização de eventos políticos de determinados partidos.

Outra questão que colocamos, até em jeito de senso comum, é “então estas figuras têm tantos assessores e não fazem nada?”; “com tantos assessores e não acertam na decisão?”. As respostas podem ser muitas e muito divergentes. Desde logo porque ter assessores não é sinónimo de ouvir e seguir as suas sugestões. Sei que pode parecer estranho, mas acontece mais do que, se calhar, esperamos. Por outro lado, como em qualquer profissão, há assessores melhores e menos bons, assim como há decisões acertadas e falhadas.

Coloquem a seguinte questão: então e se a decisão de não se pronunciar foi pensada, estrategicamente, devidamente ponderada e com um determinado propósito? Por exemplo, para fomentar a discussão pública sobre o assunto em questão; obrigar as partes envolvidas a tomarem, por si, uma decisão sem aguardarem uma sugestão ou imposição vinda de cima?

Da realidade para a ficção, o exemplo que se segue é bastante revelador daquilo que, para uns, é visto como uma não-decisão, mas que na prática encerra em si mesma uma tomada de posição. Para aqueles que a seguem, a série “The Crown”, da Netflix, retrata a vida da monarquia britânica, centrada na figura suprema da rainha Isabel II.

É uma das mais vistas atualmente, mas o que importa reter para este texto é parte de um diálogo entre a rainha mãe e Isabel II, que afirma que “não parece correto, enquanto Chefe de Estado, não fazer nada, não tomar uma posição”. Ao que a mãe responde: “É exatamente isso. Não fazer nada é o trabalho mais árduo de todos. Ser-se imparcial não é natural nem humano”.

Uns episódios mais tarde, a mesma Isabel II, num encontro com Margaret Thatcher diz-lhe o mesmo. Mas nessa altura, a resposta é um pouco diferente: “No seu caso isso é possível porque é a rainha. No meu caso, seria impensável pois teria o meu gabinete à perna”.

Tudo isto para dizer que, por vezes, achamos que uma empresa ou líder estão paralisados, sem reação, quando se impunha que fizessem algo visível aos olhos da opinião pública. A questão é que nem sempre vemos tudo, mas as decisões e as tomadas de posição estão lá.

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