As virtudes e venturas dos populismos

Há sempre uma resposta fácil para este tipo de factos: são ‘fake news’. Tudo o que for inconveniente e contrário à boa imagem deste tipo de líderes é falso e uma cabala para os denegrir.

Neste mundo actual de polarização e crispação política, em que tão frequentemente a balança eleitoral tem pendido para o lado dos profetas anti-corrupção, imigração, ideologia de género e marxismo cultural (o que quer que isso seja) e as suas mensagens de ódio, preconceito e desinformação, é importante examinar os resultados que tais soluções governativas têm conseguido alcançar. Porque os nacionalismos e populismos parecem más ideias no abstracto, mas, na realidade… sim, são más ideias.

Nessa infindável novela que se está a revelar o Brexit, parece que os produtores se preparam para uma nova temporada, apesar do guião ser o mesmo das anteriores. BoJo, que prometeu um acordo excelente e que faria do Reino Unido o melhor país do mundo, terá de engolir as suas preferências e pedir novo adiamento da saída da UE, já que o prazo de 31 de Outubro parece cada vez mais inexequível.

Curioso, quem diria que isto é o que acontece quando se vota sem pensar, por exemplo, na existência de uma fronteira física entre a UE e o Reino Unido? Entretanto, a economia encontra-se à beira de uma recessão, dada a incerteza deste processo, com a factura do Brexit a chegar aos 440 milhões de libras por semana. Ainda bem que já não vão enviar aqueles 350 milhões por semana para a UE que podiam financiar o SNS, não é? Ups…

Passando para o hemisfério sul do outro lado do Atlântico, o nosso amigo Bolsonaro continua a dizer e fazer barbaridades a um ritmo mais alucinante do que o do samba carnavalesco. Prometendo acabar com a corrupção num dos países mais corruptos do mundo, o político de carreira tem mantido o registo de baixa produtividade que trazia como deputado, sendo que, como presidente, havia conseguido aprovar, até Julho, três leis no Congresso.

Este profícuo oponente à corrupção tentou ainda colocar o filho como embaixador nos EUA, sendo que a experiência que qualificava o rapaz para o cargo foi ter estado no Maine a fazer hamburgers (alguém me faz o favor de ver no dicionário o significado de “nepotismo”, por favor?) e, agora, tem o Ministério Público à perna pelos elevados gastos nos cartões da Presidência. Bem, ao menos a economia está a crescer, atingido uns fantásticos 0,9% este ano, números que até na UE seriam anémicos. Assim realmente vale a pena abdicar de direitos de minorias e sucumbir à censura.

Rumando a norte, encontramos o papagaio-mor deste reino de conversa da treta. No seu trilho para tornar a América grande outra vez, Trump conseguiu os mesmos feitos que os supramencionados Boris e Jair e acrescenta-lhe os seus laivos de incoerência e desnorte.

Desde o romper unilateral de acordos – como o que aconteceu com o Irão, que claramente está a dar frutos e a contribuir para uma paz duradoura no Médio Oriente – passando pela guerra comercial com a China – e os efeitos fantásticos de fomento do crescimento mundial e dos EUA – Trump tem tido uma governação, no seu vocabulário limitado e sem correspondência com a realidade, excelente. Especialmente na diplomacia externa, seja a prestar vassalagem ao amigo Vladimir, a fazer-se de grande perante as câmaras com Jong-un (sem qualquer contrapartida palpável), ou a, agora, abandonar os elementos-chave da única vitória militar do maior exército do mundo nos últimos 20 anos.

Claro que, com o desemprego em níveis historicamente baixos e a economia a crescer, o eleitor americano ignora a perda de influência política por todo o mundo ou o risco de recessão que os cortes fiscais e o proteccionismo (essa característica clássica e evidente dos países economicamente liberais) trouxeram.

Sim, porque apesar de Trump gostar de falar do mercado de acções como indicador da saúde da economia (e até este já viu melhores dias), o mercado de bonds indica que poderá vir uma recessão a caminho. E, atenção senhores eleitores brancos de classe média e baixos níveis de escolaridade, nesta eleição não há nenhum presidente afro-americano para culpar.

Claro que há sempre uma resposta fácil para este tipo de factos: são fake news. Tudo o que for inconveniente e contrário à boa imagem deste tipo de líderes é falso e uma cabala para os denegrir. Sim, porque toda a gente sabe que os jornalistas são as encarnações mundanas do diabo, esses progressistas depravados que mentem a toda a hora e são controlados pelo lobby gay, judeu, socialista ou qualquer que seja o inimigo a abater naquele momento.

Podemos constatar isso mesmo na Hungria, em que Orbán se queixava dos media, até 80% destes serem controlados pelo Governo ou por oligarcas amigos do presidente. Ou a Fox News, que se diz alternativa e não-mainstream, mas lidera audiências há anos.

E isto leva-nos ao caso português. Felizmente, o desinteresse acaba por ter coisas boas: o fundamentalismo na política é ainda pouco extremado, concentrando-se nas quezílias partidárias ao centro e nas birras de certos meninos que não querem ver o seu clube aliar-se ao rival. Ainda assim, e mesmo num contexto económico bastante favorável de baixo desemprego, recuperação de rendimentos e crescimento, o eleitorado português achou por bem enviar para o Parlamento um oportunista xenófobo.

O preocupante será nas próximas eleições, depois de quatro (ou dois) anos a espalhar ódio na Assembleia da República, desinformação nas redes sociais, sendo irrelevante para aprovar leis ou Orçamentos de Estado, mas tendo (ainda mais) tempo de antena para protestar contra problemas (uns mais sérios do que outros) sem apresentar qualquer solução viável e eficiente.

Num país com mais de 40% de abstenção, há, de facto, margem para este senhor e o seu quase-partido crescerem. E, portanto, não nos devemos rir quando o comentador de futebol diz que vai tornar o Chega no “maior partido português”, mas antes salientar todos os falhanços dos profetas que, como ele, apregoavam soluções fáceis para problemas complexos, arranjando sempre um bode expiatório de uma qualquer minoria para arcar com as consequências da nossa incompetência colectiva.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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