Autárquicas e o requisito de liderar pela inovação

Rever os cadernos eleitorais deve ser uma prioridade. Estes dados desatualizados não fazem sentido, embora tenha que ser feito um trabalho de aproximar eleitores e eleitos e, sobretudo, compreender porque ficam em casa, demitindo-se do dever de ir votar.

Nas últimas eleições autárquicas, a 26 de setembro, foram eleitos os autarcas que vão liderar o seu mandato num período decisivo para o país, devido ao momento de retoma económica e social em que nos encontramos, um combate necessário para minimizar os impactos da pandemia, transversais a todos os sectores. Votamos para Câmaras Municipais, Assembleias Municipais e Juntas de Freguesia, autarcas de proximidade que trabalham em defesa dos seus territórios e para proporcionar uma melhor qualidade de vida a quem neles habita.

Estes quatro anos vão ser determinantes a nível de investimento, estratégia e coesão territorial devido à oportunidade que representa a execução dos fundos comunitários, nomeadamente, do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência (nos seus eixos de transição digital, transição climática e resiliência) e do próximo quadro comunitário, o Portugal2030. Estes instrumentos são o maior pacote financeiro de sempre do nosso país e terão que ser aproveitados com a máxima responsabilidade.

Um requisito indispensável no investimento é a cooperação. É necessário que os municípios sejam parceiros no desenvolvimento dos territórios. Uma adequada utilização dos fundos comunitários é crucial para o futuro do nosso país. Não devemos desperdiçar as oportunidades. Deste modo, há uma visão territorial agregadora que se deve sobrepor à antiga visão de que cada concelho é uma quinta que se cuida individualmente, sem olhar para o vizinho do lado.

Defendo uma nova geração de autarcas que rompa com alguns paradigmas do passado. Queremos autarcas de futuro e que sejam capazes de liderar pela inovação. Autarcas audazes, que sejam capazes de agarrar as oportunidades de desenvolvimento económico, as novas competências na área da saúde, social ou educação, mas sem esquecer a base que assenta em resolver, em proximidade, o problema das pessoas. Defender e providenciar uma melhor qualidade de vida aos cidadãos, independentemente do território onde habitam, é o objetivo de quem escolhe a política como missão.

Os resultados destas autárquicas são, naturalmente, locais mas tem sempre que existir uma análise nacional. E, a nível nacional, o resultado é claro. O Partido Socialista venceu 152 câmaras municipais, continuando a liderar a ANMP – Associação Nacional de Municípios Portugueses e a ANAFRE – Associação Nacional de Freguesias.

Num ato de democracia, naturalmente que contou com algumas derrotas, como é o exemplo de Lisboa que tem peso nacional, mas o país não pode ser só analisado a partir do sucedido na capital. E vitórias não devem e não podem ser colocadas como derrotas. Lembro que o PS venceu municípios onde nunca tinha sido poder, como são os casos de Ferreira do Zêzere (colocando fim a mais de 40 anos de bastião PSD) ou recuperou a liderança de municípios como, entre outros, Alpiarça, Loures, Espinho ou Sertã.

Outro problema muito citado e gerador de preocupação para quem analisa os números é a famigerada abstenção. Os elevados números da abstenção devem fazer soar todos os alarmes. Temos um país que, segundo os dados do INE, conta com cerca de 8,6 milhões de residentes sem idade para votar e 9,3 milhões de eleitores.

Ou seja, os cadernos estão longe de ser factuais. Isso, naturalmente, vai inflacionar a abstenção que, não obstante, continua ser um problema assente na desmotivação do eleitorado. Rever os cadernos eleitorais deve ser uma prioridade. Estes dados desatualizados não fazem sentido, embora tenha que ser feito um trabalho de aproximar eleitores e eleitos e, sobretudo, compreender porque ficam em casa, demitindo-se do dever de ir votar.

O poder local é o poder mais próximo dos cidadãos. Combater a abstenção é um dever dos eleitos, entre cada ato eleitoral, que pode ser conseguido com trabalho, transparência e proximidade. Os cidadãos devem sentir que podem confiar em quem os representa. A confiança é a melhor estratégia para levar os cidadãos a votar e consegue-se através da demonstração de um interesse genuíno em resolver os problemas das comunidades.

Finalizo este artigo, naturalmente, com os votos de boa sorte e de bom trabalho a todos os eleitos e parabenizando todos os que, de uma forma ou outra, se envolveram nesta festa da democracia que são as eleições autárquicas, onde escolhemos os nossos vizinhos para decidir sobre as nossas ruas. O trabalho autárquico deve ser acolhido com muita nobreza, espírito de missão e sentido de elevada responsabilidade, uma vez que cada decisão tomada terá reflexos não só no território localmente como no país, servindo as gerações futuras.

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