O movimento estratégico da Azul e da Gol para aumentar seu poder de barganha e otimizar operações no Brasil levanta uma questão inevitável: e se esse modelo fosse expandido para um contexto global da língua portuguesa, com a TAP integrando essa aliança?

A ideia pode parecer inédita e até ousada à primeira vista, mas faz sentido quando analisamos as tendências de consolidação no setor aéreo e a necessidade de criar hubs de influência estratégica.

O consórcio Azul-Gol, caso consolidado, vai tornar-se o maior player do mercado doméstico brasileiro, aumentando sua capacidade de negociação com fornecedores de aeronaves, combustíveis e leasing. No entanto, há um limite para a expansão dentro de um mercado que já está altamente consolidado e regulado.

É aqui que entra a possibilidade de internacionalização: a TAP, com sua posição estratégica na Europa e forte presença em rotas transatlânticas, poderia ser o elo que transformaria essa aliança em um verdadeiro conglomerado global.

A TAP já possui sinergias com a Azul, compartilhando voos e benefícios de fidelidade. No entanto, uma integração mais profunda, seja via fusão ou participação acionista – processo que o Governo português quer iniciar – criaria um corredor aéreo natural entre a América do Sul e a Europa, consolidando um hub de conexão entre Lisboa, São Paulo e outras capitais estratégicas.

A combinação da frota moderna da Azul, da malha consolidada da Gol no Brasil e do acesso europeu da TAP, estaria na origem de uma empresa capaz de rivalizar com gigantes como Air France-KLM e Lufthansa.

O desafio, claro, está na governança e nos interesses políticos e regulatórios. A TAP, ainda sob forte influência do Governo português, precisa definir seu futuro estratégico. Uma aliança com empresas brasileiras poderia fortalecer sua posição competitiva, mas exigiria um modelo de gestão que equilibrasse interesses nacionais e de mercado.

A questão fundamental é: Portugal está disposto a transformar sua companhia aérea em um ator global, aceitando a influência brasileira nesse processo? Se a resposta for sim, o setor aéreo lusófono pode estar diante da maior transformação da sua história. Se a resposta for não, a TAP corre o risco de perder espaço para concorrentes que já entenderam que, no mundo da aviação, a sobrevivência depende da escala.

Em tempos de transformação acelerada é obrigatório pensar fora da caixa e procurar soluções fora da rota do que é óbvio e costumeiro. Uma companhia aérea global em língua portuguesa seria um ativo econômico sem precedente.