Banqueiros rejeitam que moratórias dos créditos sejam bomba relógio para a banca

“Eu não vejo bomba relógio nenhuma nas moratórias”, disse Miguel Maya, com João Pedro Oliveira e Costa a dizer que não fazia sentido o alarmismo pós-moratórias. António Ramalho falou do desafio regulatório por causa da assimetria das moratórias face aos outros países da Europa. Pedro Castro e Almeida alertou que “arriscamo-nos a viver uma década de moratórias”, e Paulo Macedo apelou à necessidade de “apoios às empresas para a transição das moratórias”.

Cristina Bernardo

Na conferência “Banca do Futuro”, organizada esta terça-feira, 27 de outubro, pelo Jornal de Negócios, e transmitida online, o tema das moratórias de crédito abriu o debate do painel “Que futuro para a banca?”.

Os presidentes dos cinco maiores bancos, António Ramalho, presidente da comissão executiva do Novo Banco; João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI; Miguel Maya, presidente da Comissão Executiva do Millennium BCP; Paulo Macedo, presidente da Comissão Executiva da CGD; e Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander responderam à questão da “ameaça” para a banca das moratórias, contrariando o que tem sido dito até aqui.

“As moratórias não são uma bomba relógio”, disse o CEO do BCP, Miguel Maya que alertou que “retirar os apoios às empresas e à economia antes do tempo [ou antes das empresas terem cash-flow] é que é a bomba relógio”. “Temos de dar tempo à economia para respirar”, defendeu o presidente do Millennium BCP.

O CEO do BCP diz que o tecido empresarial evoluiu muito na última década e como tal está otimista.

O banqueiro defende que os fundos europeus cheguem “atempadamente”, e reconheceu que no tecido empresarial português há empresas que “vão partir”. Mas isso não assusta o presidente executivo do maior banco privado que defende que essa triagem se faça mais cedo. A definição clara das empresas que não são viáveis, daquelas que o são, permite à banca alocar os recursos, que são escassos, às empresas viáveis.

“Estou otimista como o projeto político europeu olha para esta crise”, defendeu. A banca está mais preparada do que na crise anterior, defendeu também Miguel Maya.

Antes António Ramalho, CEO do Novo Banco, admitiu que “hoje somos uma economia em moratória” e lembrou que as moratórias de crédito são usadas por uns setores mais do que por outros. O banqueiro disse que há um setor com mais de 60% em moratória que é o da hotelaria, e que noutros setores há moratórias de mais de 30% dos créditos, que têm estruturas de lazer e outros com níveis menores.

O processo de recuperação económico é mais lento do que o esperado, revelou  António Ramalho que admitiu que se deve olhar para a especificidade dos sectores e admitiu que o turismo, do qual o país muito depende, terá uma crise mais dilatada no tempo porque se juntou uma crise de confiança, com uma crise de mobilidade e uma crise sanitária.

Mas logo depois Paulo Macedo, CEO da CGD, relativizou os alertas, ao dizer que “a Caixa não está em moratória, o Governo não está em moratória, a política europeia não está em moratória e os clientes da CGD não estão em moratória”, em resposta a António Ramalho. O CEO da Caixa defendeu que há concentração de risco que cabe antecipar, e como tal apelou à necessidade de “apoios às empresas para a transição das moratórias”.

Os apoios que foram dados estão muito para além das moratórias, explicou, para dizer que “isto permitiu que o rendimento das famílias se mantenha”, disse Paulo Macedo. O consumo cai pela menor procura, e não tanto pela quebra do rendimento, salientou.

“Há um trabalho grande do Governo para evitar o shutdown, e daqui vai depender o êxito ou não das moratórias”, disse o CEO da CGD.

Para o banqueiro a questão das moratórias vai “depender do que vai acontecer às empresas” e da “saída sustentável” desta medida. Ou seja, se haverá apoio às empresas na saída das moratórias e se vai haver ambiente económico (procura e investimento) que permita que estas sociedades possam fazer face ao cumprimento de dívida, refere o banqueiro.

“Há aqui um papel ativo da parte das empresas, do Governo, e dos bancos”, disse o CEO da CGD. Os bancos hoje fazem parte da solução. “Estão com medidas anti cíclicas, ao contrário da crise anterior onde se juntaram aos governos nas políticas pró-cíclicas”, lembrou.  Deu o exemplo do crescimento do crédito à habitação para aproveitar as taxas de juro baixas.

Já o Governador do Banco de Portugal, disse que a modulação adequada das estratégias de saída deve levar em consideração a evolução dos desenvolvimentos sanitários, económicos e financeiros.

As moratórias estão previstas durar até setembro de 2021. Sobre a ausência das medidas no OE para as empresas, Macedo lembrou que estamos dependentes do que vai acontecer ao nível das saúde. “Se as empresas não conseguirem restabelecer os seus cash flows, terá de haver apoios”, lembrou. “Os bancos só têm um problema se houver uma derrocada no  sistema produtivo nacional”, disse.

“Não vemos sinais negativos na PME e no crédito ao consumo há apenas sinais muito ligeiros de imparidades”, referiu Paulo Macedo.

Já João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI disse que não fazia sentido este alarmismo para o pós-moratórias, e que ele é apenas fruto da incerteza em que se vive em contexto de pandemia Covid-19. “Só cria ansiedade”, disse.

O CEO lembrou a ajuda que foi dada à economia pela banca em termos de liquidez com as moratórias, que quantificou em 9,2 mil milhões de euros “só em prestações”. “O impacto direto da pandemia ainda não se está a concretizar”, disse o CEO indigitado do BPI. “Na prática ajudam a não a pôr crédito em cima das dificuldades”, e “evitam necessidade de mais as ajudas do Estado”.

As empresas precisam é de apoio imediato neste momento e só depois se verá as soluções de longo prazo, defendeu.

Pedro Castro e Almeida, concordou que a futurologia é ineficaz, parafraseando o CEO do BPI. Mas lembrou que o país que “em termos absolutos tem mais moratórias é Portugal”, revelou o CEO do Banco Santander Portugal.

Em Portugal as moratórias superaram as linhas de crédito protocoladas com garantia do Estado e nos outros países foi exatamente o contrário, constata o CEO do Santander Totta. “Aqui, decidimos dar moratórias e pouco apoio em termos de linhas garantidas, sendo que, no mundo inteiro, foi exatamente o contrário”, revelou Pedro Castro e Almeida.

“Estou relativamente otimista no curto prazo. Se tivesse 80 anos não estava preocupado, mas se tivesse 30 estaria muito preocupado, principalmente estando na Europa”, disse ainda o banqueiro. As receitas aplicadas em 2020 funcionaram, no longo prazo temos de mudar a mentalidade, mudar o mind set de proteção para um de produtividade”, disse o CEO do banco.

“Arriscamo-nos a viver uma década de moratórias”, disse Pedro Castro e Almeida, falando da “tentação de empurrar tudo para a frente, versus o erro de querer sair rapidamente”, e da necessidade de haver um meio termo entre uma coisa e outra.

O CEO da filial do banco espanhol também realçou o elevado endividamento da economia portuguesa. Já antes o Governador do BdP tinha dito que um dos legados da crise é o aumento do endividamento do Estado e das empresas não financeiras.  “A médio prazo, o sobre-endividamento pode levar à redução do investimento, enfraquecendo a competitividade e o crescimento económico”, reconheceu o supervisor bancário.

“Para fazer face a esta dificuldade, são necessárias medidas de fortalecimento do capital das empresas, para reduzir a alavancagem e aumentar sua capacidade de serviço da dívida”, defendeu Mário Centeno que reconheceu que várias opções foram propostas e, em alguns países, já implementadas, tais como apoios (leia-se transferências) diretos, participação no capital social ou instrumentos de dívida subordinada com capital público ou incentivos fiscais de modo a favorecer injeções de capital privado nas empresas.  “Devem, em todos estes casos, ser privilegiados instrumentos de mercado”, defendeu o Governador.

António Ramalho, disse que há dois desafios para as empresas saírem das moratórias, um deles é um desafio regulatório. Falou da assimetria face aos outros países da Europa. “Temos 22% em moratórias, e só existe um país, que é a Irlanda com 13% de moratórias, e todos estão abaixo dos 10%”, lembrou o banqueiro que detalhou ainda que Portugal tem as “moratórias mais longas”. Em Portugal as moratórias são de nove meses ou mais, e noutros países apenas de seis e três meses, lembrando que Espanha está quase sair das moratórias. Esta assimetria pode trazer  problemas regulatórios a Portugal, alertou António Ramalho.

“Não gosto nada de estar em minorias quando há assimetrias”, disse o CEO do Novo Banco.

O CEO do Novo Banco falou ainda de uma outra moratória, para lá das do crédito: “a moratória da decisão do ponto de vista das reestruturações, do ponto de vista da reorganização, das consolidações, das concentrações que são decisões fundamentais para resolver problemas às empresas”, alertou.

Portanto, o presidente do Novo Banco foi muito favorável à primeira fase das moratórias, mas menos em relação à extensão das moratórias até setembro de 2021. “Temos 70% dos clientes a pagar juros e só com moratória de capital”, revelou o CEO do Novo Banco como um ponto positivo da instituição.

Sobre a subida do crédito malparado no pós-moratórias, Ramalho não está pessimista no que toca ao crédito de particulares por causa das proteções sociais do Estado.

Já quanto às empresas o grau de incerteza é maior. “Temos uma falha de investimento privado” neste enquadramento, reconheceu ainda o banqueiro.

“A única coisa que temos a certeza é que os níveis dos NPE estão em 6,5% e que os bancos têm o dobro do capital que tinham na última crise”, disse.

Questionados sobre se as moratórias devem ser estendidas para lá de setembro de 2021? João Pedro Oliveira disse que não; Miguel Maya defende que sim e explicou que as moratórias são uma resposta a uma ausência de cash-flows e partindo do pressuposto que a economia vai recuperar no fim da pandemia, “as empresas viáveis devem ser preservadas”. Lembrando que os créditos fora da moratória sem a economia recuperar são marcados como NPE.

O CEO do BCP acredita na recuperação da economia, só não se sabe é quando, e por isso não hesita em prolongar as moratórias se a pandemia não estiver controlada em setembro de 2021.

Miguel Maya defendeu que a inviabilidade financeira (não tiveram cash flow e tiveram dívida adicional) em empresas viáveis com créditos garantidos pelo Estado devia já levar o Governo a criar um Fundo Soberano em que o Estado assumisse essas participações e não transformasse em perdas essas garantias bancárias. O custo de honrar a garantia bancárias já está tomado pelo Estado.

Já Paulo Macedo defende que o adiamento das moratórias deve ser por sectores e depende do apoio que vier a ser dado à transição.

Neste momento não há mecanismo europeu para o adiamento das moratórias para lá de setembro de 2021, lembrou O CEO da CGD.

O painel acabou por abordar essencialmente o tema das moratórias de crédito e o impacto no malparado e abordar pouco o tema dos desafios ao nível das concentrações na banca, que se poderão vir a pôr no futuro.

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