Berardo e a floresta

O ‘caso Berardo’ confirma uma evidência: o regime de Sócrates fez um assalto aos bancos para dar ao seu comandante o poder supremo de decidir que empresas poderiam ter acesso ao crédito.

Passei grande parte dos últimos anos angustiado e a interrogar-me: se esta gente é assim, como pode Portugal ter futuro? Este pensamento tinha a ver com os ’empresários’ e políticos que ia conhecendo, e com quem, por via da minha profissão de jornalista, tinha de trabalhar diretamente ou de contactar com assiduidade.

E tenho, por isso, uma notícia desagradável a dar: não se pense que José Berardo é o pior exemplo daquilo que a sociedade portuguesa pode apresentar. Há pior, muito pior, nesse campeonato do descaramento, da incultura, da boçalidade, da irresponsabilidade social e de uma criminosa maneira de viver a vida à conta do erário público e dos bancos.

A coleção de capatazes que não sabem, não se lembram, não viram, não possuem, não fizeram, cuja agenda só marca almoço, jantar e traficar, e que até são capazes de sacudir um último pingo de dignidade para salvarem o dinheiro que escondem em offshores é bastante mais vasta, não se esgota na miserável novela que tem decorrido no Parlamento a propósito dos roubos públicos perpetrados nos últimos anos. Berardo, insisto, apenas abusou da sorte porque sempre viveu a vida com este descaro que agora todos os portugueses já conhecem e da maneira mais chocante.

O ‘caso Berardo’ confirma ainda uma evidência: o regime de Sócrates fez um assalto aos bancos para dar ao seu comandante o poder supremo de decidir que empresas poderiam ter acesso ao crédito. A lógica era simples: Ricardo Salgado estava sempre com o governo de turno, a Caixa era nossa e o BCP, como maior banco privado, era a peça que faltava. Esse foi o racional do processo que movimentou Carlos Santos Ferreira e Armando Vara da CGD, em comissão de serviço, para o BCP; ou Francisco Bandeira, elemento da comissão da CGD que avalizou o empréstimo a Berardo sem as devidas garantias, e que foi colocado no BPN depois da derrocada cavaquista; ou, até, Celeste Cardona, que fez parte da mesma irmandade com Maldonado Gonelha.

Tivemos em Portugal a versão europeia do que se passou no Brasil com Lula e na Venezuela com Chávez ou Maduro. O pernil de porco, as casas pré-fabricadas, como antes o mensalão, a troca da participação da Vivo pela da Oi, a defesa da PT da OPA da Sonae e outros negócios que se podiam pensar entre a tenda do defunto Khadafi e os palácios da América Latina são episódios desse pesadelo nacional de que só acordámos, a partir de 2009, pelo lado bom da trágica crise imobiliária “made in USA”.

Os deputados portugueses podem dar as voltas que quiserem mas não deviam fingir que não sabiam, ensaiando, na série Berardo, aqueles rostos dignos de uma produção de Hollywood. Por maioria de razões, não tenho apreço pelas reações de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. Eles sabem, sempre souberam, do papel que Berardo e os outros desempenharam e desempenham na sociedade portuguesa.

Claro que seria justo que Berardo, nesta versão de um sem-abrigo, perdesse os quadros da coleção que ainda leva o seu nome. Aquela interpretação do ainda comendador produz asco. Mas há uma conclusão evidente deste processo: os 969 milhões concedidos a Berardo para comprar ações do BCP não foram emprestados por incompetência. Saíram, naquela altura, da troika de bancos (CGD, BES, agora Novo Banco, e do próprio BCP) por decisão política, conluio criminoso e objetivo bem definido. E de toda essa gente só Armando Vara está preso e não por motivos diretamente relacionados. Os outros responsáveis por uma destruição de valor ainda incalculável continuam à solta.

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