‘Bienvenue’: sem romper com o passado, Lagarde poderá trazer novo estilo ao BCE

A francesa que transita do FMI já está ao volante do banco central da zona euro desde o início de novembro, mas o grande momento é hoje, com a primeira reunião do Conselho de Governadores. A política monetária não deverá mudar, mas Lagarde poderá alterar o estilo da comunicação.

Mario Draghi deixou a casa arrumada, provavelmente para permitir à sucessora na chefia do Banco Central Europeu (BCE) algum tempo de adaptação e uma transição suave.

“Na sua primeira reunião como presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde deve defender a política monetária do seu antecessor e as fortes medidas adotadas a 12 de setembro, nomeadamente a descida na taxa dos depósitos, a implementação um mecanismo multi-tier nos depósitos dos bancos e a retoma de um programa de compra de ativos líquidos”, referiu Franck Dixmier, global head of fixed income da Allianz Global Investors (GI).

“Na ausência de grandes desenvolvimentos macroeconómicos desde a última reunião de outubro, não há justificação para ir mais longe nesta fase”, adiantou.

Os analistas são consensuais, dado que a reunião do Conselho de Governadores não deverá resultar em novas medidas o grande interesse é o de ser a primeira da nova presidente. “O entusiasmo não advém realmente de qualquer alteração nas políticas, mas sim de como o estilo de comunicação de Lagarde poderá ser diferente do de Draghi”, explicou Carsten Brzeski, economista-chefe do ING Germany.

O analista recordou que Draghi teve uma estreia forte no principal palco do BCE ao falar sobre detalhes dos dados económicos e que, nos oito anos à frente da instituições, o italiano não se enganou na comunicação, que era clara e muito técnica.

“Dado que os comentários de Christine Lagarde sobre a sua visão da política monetária tem sido escassos desde que chegou ao cargo, os mercados irão estar muito atentos à primeira conferência de imprensa”, sublinhou Brzeski. “Não esperamos que Lagarde mude a estrutura da comunicação introdutória à conferência, mas estaremos atentos a mudanças no estilo na linguagem na sessão de perguntas e respostas”.

O economista do ING explicou que há outros motivos de interesse, como eventuais sinais sobre a revisão estratégica que o BCE está a preparar, comentários sobre as discussões entre as ‘pombas’ e os ‘falcões’, além das novas projeções económicas (que não deverão ser muito diferentes das de setembro).

Franck Dixmier, do ING, realçou que “vai ser interessante ouvir Christine Lagarde falar sobre as opções para a revisão estratégica da política monetária, incluindo uma redefinição precisa das metas de inflação e de que forma são medidas”.

Recordou que no mandato de Mario Draghi, a inflação geral ficou em média em 1,2%, enquanto a inflação subjacente subiu para 1,1%, bem abaixo da meta do BCE. “Esse baixo desempenho exige necessariamente uma reflexão sobre os objetivos do BCE e a maneira como a inflação é medida. Apontando para uma taxa de inflação inferior – mas perto de – 2%, parece ser muito vago”, adiantou Dixmier.

“Embora não esperemos desenvolvimentos significativos a partir da reunião de 12 de dezembro, prevemos um provável corte na taxa dos depósitos no primeiro semestre de 2020, em linha com as expectativas do mercado e o nosso cenário de uma provável deterioração no contexto macroeconómico”, referiu.

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