Blair em Lisboa

O ex-primeiro-ministro britânico fez o contraponto com dias medíocres em que a sociedade portuguesa pareceu reduzida a novos e patéticos episódios da tragédia-Sócrates e à gaguez mental de alguns agentes políticos.

O debate político português está terrivelmente paroquiano. A extrema-esquerda e a extrema-direita, cujas franjas mais militantes descobriram agora o caminho para o Parlamento, envolvem-se diariamente, às vezes dentro da própria seita, em pequenos confrontos verbais absolutamente irrelevantes – e uma certa comunicação social, militante de causas e amnésica em relação às bases do jornalismo, que deveria ser substantivo e factual, amplia-os como se esses episódios de caserna tivessem alguma importância. Não dou exemplos para não participar no festim da banalidade; mas eles são muitos e estão à vista de todos.

O problema, infelizmente, não é apenas nacional. Aliás, chegamos, como sempre, atrasados às modas. André Ventura ou Joacine Katar Moreira, por exemplo, descendem em linha reta da futilidade da política global, habitada pelo pessimismo securitário ou pela elevação da temática sexual, e seus derivados, a prioridade do ser humano.

Como disse Tony Blair em Lisboa, na Web Summit, o estado da política ocidental é deprimente. Afirmou ele, textualmente, e com certeza  não estaria a referir-se às pequenas figuras de opereta portuguesas que finalmente emulam alguns dos grandes do mundo, que “parece que existe uma competição para ver quem é o mais doido”.

É uma definição correta e apenas me custa que tenha sido proferida por um dos homens que a partir da base das Lages decretou uma guerra fundada num embuste: o de que Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque, possuiria armas de destruição massiva e seria um perigo para a humanidade.

Regresso à atualidade para concordar mais uma vez com o que disse Blair: o populismo explora o pessimismo, procura alguém a quem culpar. Acrescento: para a direita, podem ser imigrantes ou ciganos, pretos ou gente que professa uma qualquer fé. Para a esquerda, pode ser a diabolização do capital, do negócio ou a ‘urgência’ da normalização do sexo como o centro da vida, a única razão para a existência do ser humano, assim reduzido à função hedonista mais básica.

Enquanto isso, pessoas reais, no mundo real, diversas e libertas de fantasmas que as escravizem, verdadeiramente livres e por estes dias reunidas em Lisboa, num evento tão criticado como útil, a Web Summit, vão dando passos para mudar a forma de viver dos outros, descobrindo coisas novas que podem vir a trazer benefícios à sustentabilidade da vida na Terra. A solução para os perigos que ameaçam o Homem (e a mulher, acrescentarão os extremistas de género) passa por esta gente, jovem, empreendedora, diligente, que nem sequer sonha com as banalidades que em seu nome se proferem na esfera política.

Blair diz ser necessário juntar políticos e empreendedores, digitais e outros. Só assim se poderá, acredita, combater o pessimismo – que, entre nós, se manifesta na insustentável leveza dos profissionais da política dos costumes, à esquerda e à direita, aparentemente tão distantes e na prática tão semelhantes.

Esta mensagem do ex-primeiro-ministro britânico vale a pena e acabou por fazer o contraponto com dias medíocres em que a sociedade portuguesa pareceu reduzida a novos e patéticos episódios da tragédia-Sócrates e à gaguez mental de alguns agentes políticos. Felizmente que há vida para além dessa farsa.

Recomendadas

Por que hei de gostar de futebol?

Eu sei que estou em contraciclo, visto que mais um campeonato de futebol europeu está aí à porta. Que eventos desta importância não sejam ensombrados por mais acontecimentos grotescos. Só assim poderei mudar a minha a opinião.

O Euro 2021, ai desculpe… 2020

Manter o nome do torneio tem o seu quê de estranho, pois lembra-nos que ainda vivemos numa espécie de ‘loop’ existencial, presos numa fase transitória da vida, entre a pandemia e o pós-pandemia.

Para uma crítica ao ‘Homo consumens’

É preciso revolucionar criticamente as representações que fazem da escassez um fetiche estruturante de todas as nossas relações com o mundo. A escassez nem é, por si mesma, dotada de valor, nem deve ser socialmente promovida. Pelo contrário, deve ser excluída das práticas de criação de valor.
Comentários