O ano de 2026 é o de todas as incógnitas. Nos EUA temos as midterm, eleições intercalares. Para Trump a situação é clara: perder três deputados é perder o controlo da Câmara dos Representantes. Sob o seu comando os republicanos estão a alterar o mapa dos círculos eleitorais nos estados que controlam para ganhar deputados (cinco no Texas, um no Missouri, dois no Ohio, um na Carolina do Norte, dois em Indiana, até cinco na Florida), ao que os Democratas responderam na chamada gerrymandering war (cinco na Califórnia, dois a quatro na Virgínia, um no Utah, outro em Maryland).  Como se diz nos livros policiais, the plot thickens.

No panorama económico as novidades também são relevantes. A Fed terá um novo presidente, que provavelmente será Kevin Hassett, diretor do National Economic Council. Mas como explica Gabriel Rubin na Reuters, o verdadeiro presidente da Fed será Bessent, o Treasury Secretary. Será quase voltar aos tempos de Andrew Mellon, o último a ser também chairman ex-officio da Fed. Note-se que Hassett adivinha tão bem como um apostador falido, desde o livro Dow 36000 que publicou em vésperas do burst das dotcom (o Dow caiu 30%, para menos de 10000, em três anos) às suas previsões da pandemia acabar em maio de 2020 e do produto americano cair 40% no segundo trimestre desse ano.

A 25 de novembro, quando foi noticiado como principal candidato, o yield dos títulos do Tesouro a 10 anos aumentou 11 pontos base. Mas é um homem do presidente que, aparentemente, já domina a Fed: este mês não só foi reduzida a taxa de juro, apesar das dúvidas, como foram retomadas as compras de dívida pública, 40 mil milhões de dólares por mês, pretextando razões técnicas (manter a liquidez, mas a compra é muito superior aos ativos que atingem a maturidade). Por outras palavras, diminui o custo da dívida. A economia americana deverá crescer 2%, com estímulos fiscais e dinamismo da bolsa, a custo de alguma fraqueza do dólar e veremos com que consequências sobre inflação e financiamento da dívida, que não é sustentável.

Na Europa a situação não melhora. Entramos o ano sem saber quanto tempo durarão os governos em França e Rachel Reeves, a chanceler britânica, continua a tentar aplicar as receitas velhas para tentar endireitar problemas novos. A consequência é simples: a Itália, que era em termos financeiros o enfant terrible da União, vê o seu rating melhorado pela Moody’s, o que acontece à la Dumas, 20 anos depois; o spread para a dívida alemã caiu de 245 pontos base para 75 e o seu setor bancário está em franca recuperação.

O Mundo está ao contrário, como cantava Jimmy Cliff. Só são respeitadas as nações financeiramente disciplinadas ou, como os EUA, militarmente poderosas. A Europa, infelizmente, está a perder uma e não tem a outra. A maneira como é tratada pela Administração americana mostra que nem como aliados somos considerados – parafraseando Edward Lucas, do CEPA, se a Europa não está à mesa, está no menu.

Para nós, neste cantinho, 2026 vai ser um ano de riscos. Mas uma coisa é certa, é preciso manter a redução da dívida em percentagem do PIB. Ainda temos a sexta dívida, acima da média europeia, e vamos ter de aumentar a despesa em Defesa, pois dos fracos não reza a História. Por isso, é com preocupação que devemos ver a maneira como se está a acabar com o nosso excedente orçamental, perdemos margem de manobra e capacidade de resposta a choques. Ficamos ao sabor da conjuntura, e pode saber mal.