Capital cinzenta

É urgente um plano que contemple não só uma mudança de rumo na capital, mas também que execute o que ficou por fazer na última década e meia e que concretize uma cidade com qualidade de vida.

O resultado de década e meia de gestão socialista na Câmara Municipal de Lisboa (CML) traduz-se numa cidade descaracterizada, com elevados níveis de despesismo e projectos megalómanos. Exactamente a direcção contrária do que deveríamos almejar para a capital.

Lisboa Capital Verde Europeia 2020 (LCVE2020), uma das grandes bandeiras deste executivo, constituiu apenas uma fachada para muita propaganda, muitos negócios ruinosos para o erário público e pouca melhoria na área da política ambiental. Enquanto a câmara se congratula de ter plantado uns milhares de árvores na cidade, prossegue a sua agenda de reduzir o número de funcionários camarários na área de manutenção dos espaços verdes ao longo dos anos enquanto aumenta o número de contratos celebrados com entidades externas.

O motivo? É um negócio muito lucrativo. Em Dezembro de 2020, a imprensa expôs o caso dos Alhos e dos Montes, duas famílias que entre elas criaram oito empresas de manutenção de espaços verdes e que de 2009 a 2020 celebraram 370 contratos com o Estado, num total de 27 milhões de euros. Poderíamos pensar que o caso teria encerrado nessa data, quando foi exposto na imprensa, mas infelizmente não foi o que aconteceu, a CML e várias juntas de freguesia continuaram o negócio inclusive celebrando mais contratos com as mesmas empresas.

Os números da LCVE2020 não enganam – os valores dos contratos para a comunicação da efemeridade são obscenos, vários milhões voaram para agências de publicidade, outdoors, merchandising, redes sociais, jantares e cocktails, etc. Já para não falar nos casos mais caricatos, como os 115.000 euros para um rebanho de 20 ovelhas combaterem as alterações climáticas pastando no Parque da Bela Vista ou a produção das bandeiras ecológicas com materiais de plástico reciclado recolhido no mar, que ficou por 80.000 euros.

Este despesismo é imoral, principalmente quando parece não haver fundos para os bairros sociais, creches, os prometidos Centros de Saúde ou para programas de apoio a idosos. E também é absurdo quando sabemos que o mesmo executivo fomenta a vinda massiva de barcos de cruzeiro poluentes que libertaram 3,5 vezes mais óxido de enxofre que os 375 mil automóveis que circulavam diariamente na capital antes da epidemia, disparando a poluição atmosférica e degradando a qualidade do ar.

É urgente um plano que contemple não só uma mudança de rumo na capital, mas também que execute o que ficou por fazer na última década e meia e que concretize uma cidade com qualidade de vida, virada para as prioridades dos seus habitantes em termos de política ambiental.

O projecto da LCVE2020 é realizado invocando constantemente o Plano Verde e o imenso legado de Gonçalo Ribeiro Telles para Lisboa. É caso para perguntar, se Ribeiro Telles fosse vivo, não ficaria escandalizado com estes projectos e o despesismo ruinoso levado a cabo durante anos abusando do seu nome?

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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