Capitalismo sem capital

É surpreendente como os gigantes tecnológicos conseguem dominar os mercados em que atuam sem uma base significativa de capital físico. O desafio para os contabilistas é capturar esta nova realidade nos balanços das empresas.

Embora o título possa ser enganador, não pretendo abordar a saga do assalto ao BCP nem nenhum outro capítulo da nossa recente história empresarial, em que falsos capitalistas têm pretendido tomar o controlo de grandes empresas sem possuir uma base de capital adequada.

Mas é um facto que, nas últimas quatro décadas e não só na última dúzia de anos, muitas das tomadas de controlo dos grandes grupos portugueses, a começar pela privatização dos serviços públicos, não teria sido possível sem um apoio generoso e generalizado das entidades financeiras a acionistas que não assumiram riscos equivalentes com o seu próprio capital, resguardado noutros negócios e noutras geografias.

Tão frequente acaba por ser este tipo de situações no nosso mercado que apostaria em classificá-la como uma variante autóctone do sistema económico, mais próxima do “dividismo” que do capitalismo.

Mas o foco da minha reflexão caminha exatamente no sentido oposto desta introdução. É surpreendente como os gigantes tecnológicos conseguem dominar os mercados em que atuam sem uma base significativa de capital físico. No caso da Microsoft, a empresa mais valiosa do mundo de acordo com a sua cotação atual nos mercados financeiros, os ativos físicos que possui no seu balanço equivalem tão-só a 0,1% do seu valor: 10.000 milhões de dólares em ativos para 1.000.000 de milhões de valor do seu capital.

Nos melhores anos do capitalismo industrial do século passado, nos “gloriosos trinta” entre 1945 e 1975, o valor criava-se no mercado com fábricas e trabalhadores. Era um capitalismo previsível, com regras claras e crescimento estável, que contribuiu para um sólido ordenamento social com o protagonismo das classes médias na consolidação das democracias ocidentais. Reagan e Thatcher recuperaram um capitalismo muito mais desregrado que, junto com a dramática evolução tecnológica das últimas três décadas, tem reconfigurado o sistema económico.

Hoje, as empresas como a Microsoft produzem valor não através de máquinas e fábricas mas através de intangíveis como o talento das suas equipas, os programas informáticos ou as experiências de serviços que criam, com proximidade e confiança, para os seus clientes.

O que conta para os investidores nessas empresas não é a garantia real dos seus ativos, mas a capacidade de produzir uma nova versão das suas aplicações melhor sucedidas que garanta fluxos de caixa e dividendos crescentes, com operações escaláveis e propagáveis a segmentos de mercado adjacentes que estendam o domínio dessas empresas a um número cada vez maior de áreas de atividade.

O desafio para os contabilistas é capturar esta nova realidade nos balanços das empresas de forma a transformar as suas capacidades intangíveis em orientações mais tangíveis para os seus investidores.

Com base na forma em que hoje no mundo se cria valor, há quem tenha classificado a riqueza global da seguinte forma: 63% de capital humano, 27% de capital físico e 10% de recursos naturais. Nessa estatística, Espanha e Portugal possuíam muito menos capital humano e recursos naturais e mais de 40% de capital físico. Seria bom aplicar parte dele para garantir as nossas transações mais mediáticas.

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