Carros a pilhas são brincadeira cara

Atendendo-me à lógica e ao conhecimento da teoria da difusão e adoção de inovações, os carros elétricos alimentados por uma bateria que depende de uma rede de distribuição de eletricidade que não existe, não são o futuro.

A maior invenção humana não foi a produção de eletricidade, nem a lâmpada incandescente. Também não foi a penicilina nem o microprocessador nem o avião. Segundo a revista “The Economist”, a invenção decisiva que mudou radicalmente o curso do progresso da humanidade foi a rede nacional de distribuição elétrica.

A produção e distribuição de corrente alterna foi a descoberta que permitiu massificar a distribuição de eletricidade a grandes distâncias. Até então, a distribuição era feita sobretudo através de corrente contínua, um sistema geograficamente limitado. A eletricidade era consumida onde era produzida.

O servo-croata naturalizado americano Nikola Tesla (1856-1943), trabalhando para a Westinghouse, deu um contributo importante com o seu motor de indução e distribuição polifásica demonstrando, finalmente, a viabilidade e superioridade da corrente alterna em 1883, numa feira mundial realizada em Chicago.

Uma importante lição a retirar desta história é a de que a massificação da distribuição é fundamental para o sucesso na adoção de qualquer produto, serviço ou tecnologia.

Este conhecimento conduz-me à incredulidade quanto à propalada massificação de automóveis cuja fonte de energia reside numa bateria que precisa de ser regularmente carregada numa tomada de corrente elétrica – uma tomada que não existe para a esmagadora maioria dos consumidores-condutores, que demora a ser carregada e de que se desconhece haver o investimento necessário para a sua massificação e disponibilidade.

Mas, mesmo que houvesse, como colocar à disposição, a qualquer momento, de todos os proprietários de carros elétricos, suficientes tomadas nas ruas das cidades?

Segundo o sociólogo americano Everett Rogers (1931-2004), os cinco atributos de uma inovação devem ser, em relação ao que já existe e massificado: vantagem relativa, compatibilidade, complexidade fácil, fiabilidade e observabilidade (a possibilidade de ser visto em funcionamento). Um exemplo clássico é a adoção do telemóvel. O leitor faça o exercício e verificará que cumpre todos os atributos em relação ao telefone fixo. O futurista Roger Fidler chamou a este processo a criação de “pontes de familiariedade”.

A mesma ideia tem sido posta à prova inúmeras vezes, como por exemplo a invenção do carro (uma carroça com motor autónomo), Steve Jobs (iPod é um MP3 giro) ou os criadores de Google (Yahoo melhorado).

As inovações têm de ser avançadas, mas ainda assim aceitáveis: “Most Advanced. Yet Acceptable”. É o Princípio MAYA desenvolvido por Raymond Loewy (1893-1976), um designer francês que emigrou para os EUA e que concebeu para o Presidente Kennedy a pintura azul exterior ainda em uso no Air Force One. Também desenhou o logo do Greyhound, a locomotiva S1 da Pennsylvania e redesenhou a garrafa de Coca-Cola.

Muitos milhões de consumidores pensam como eu. E os carros a gasolina ou gasóleo continuam a vender-se muito mais que os carros equipados com baterias recarregáveis em tomadas da rede de distribuição elétrica. Muito simplesmente não há nem se vislumbra que venha a haver tomada para carregar. OK, vive numa moradia onde carrega durante a noite e a garagem da empresa onde está todo o dia disponibiliza uma tomada só para si. Então, “no problema”. Ah! Mas e as viagens? E se o hotel não tem tomada para carregar durante a noite depois de percorrer apenas 300 e tal quilómetros?

Quanto a mim, atendendo-me à lógica e ao conhecimento da teoria da difusão e adoção de inovações, os carros elétricos alimentados por uma bateria que depende de uma rede de distribuição de eletricidade que não existe, não são o futuro. É simplesmente impraticável nas cidades onde a maior parte das pessoas vive em edifícios de apartamentos e onde nem sequer há lugar para estacionar o carro, quanto mais estacionar junto à “sua” tomada.

A tecnologia de produção de energia móvel que melhor corresponde aos cinco atributos de Rogers é a da célula a hidrogénio que produz a eletricidade no próprio veículo (carro, comboio) e que faz mover o motor.  Muito simplesmente, enche-se o depósito com o líquido nas estações de serviço que já existem numa operação que demora minutos. Do tubo de escape sai apenas água. O carro não precisa de estar ligado à corrente como um telemóvel para funcionar. Vai-se à conveniente bomba e enche-se o depósito, um hábito totalmente familiar para cuja satisfação existe uma enorme rede de distribuição.

Mas a produção de hidrogénio tem problemas de transporte e armazenamento (temperaturas muito frias, mais do que para o gás), bem como de produção, que estão longe de estar resolvidos. A técnica de produção mais ecológica é a que utiliza água como matéria-prima. Todavia, a transformação de água requer eletricidade cuja produção pode ou não ser limpa.

Segue-se o gás natural como fonte menos suja. O processo mais utilizado atualmente para a produção de hidrogénio é a liquefação de carvão de baixa qualidade. A Austrália é o maior produtor e está a exportar hidrogénio com origem em carvão para o Japão. Ou seja, o Japão utiliza uma tecnologia limpa mas transfere as emissões de carbono para a Austrália (parece que eles não se importam muito). E, claro, a produção e desafetação das baterias, qualquer que seja o meio para as carregar, também colocam problemas ambientais.

Por agora, os carros a pilhas são um estratagema caro dos fabricantes para cumprirem quotas ambientais impostas pela UE. Mas é preciso desenvolver muito a produção limpa de eletricidade e/ou a tecnologia de captura de carbono para que o hidrogénio se afirme como a energia que virá substituir os hidrocarbonetos nos depósitos dos carros. Aparentemente, os consumidores estão à espera de uma solução que permita simultaneamente ser ecológico e, como agora, autónomo.

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