Carta aos homens

Não basta aos homens não participarem da masculinidade de dominação para seguirem de consciência limpa pois isso é frustrar qualquer expectativa de mudança. O #metoo tem de ser também os homens falarem, para romper com a masculinidade cúmplice.

Há um certo androceu, muitas vezes bem estabelecido, que anda aflito com a onda de denúncias de assédio e abuso que muitas mulheres tiveram finalmente condições de trazer para o espaço público português ao longo das últimas semanas.

O #metoo tardou, mas acabou por cá chegar: é poderoso e irreversível. Não tenham ilusões. Mas também não se assustem tanto. É de uma guerra que se trata, mas não aos homens. É uma guerra a comportamentos inaceitáveis de abuso de poder que vêm de uma visão naturalizada do que são os papéis de género, daquilo que são as prerrogativas da masculinidade e as da submissão feminina, visão essa com que é preciso romper.

Chegar tarde a Portugal apenas quer dizer que a resistência que encontra na nossa sociedade é muita. Foi e persiste muita, como vemos nestes dias. E a principal tarefa cívica a fazer diante dela é desarmá-la, serenamente, com a coragem das palavras.

A realidade que está a ser trazida à luz do dia é a de que praticamente todas as mulheres foram, em alguma altura das suas vidas, vítimas de algum tipo de agressão de género, entenda-se, suportaram o avanço não consentido de um homem, que se apresenta como ameaça à sua integridade, física ou psicológica, com intrusão no seu corpo, na sua intimidade, nas suas escolhas.

Isto não significa, nem de perto nem de longe, que todos os homens sejam agressores. Até mesmo a experiência das mulheres diz que são uma minoria. Aliás, se fosse uma maioria a condenação social dificilmente se manteria. Não é raro ver homens incrédulos ao ouvir testemunhos de mulheres, ou não era, até há muito pouco tempo.

Mas esse foi o trabalho do silêncio, que tem vindo agora a ser exposto e deve continuar a sê-lo. É preciso que percebamos todos que o silêncio, o não se falar do assunto, protege muito menos eventuais vítimas de uma falsa acusação que as condições que perpetuam o assédio e o abuso como uma inevitabilidade na vida de uma mulher na nossa sociedade.

Suportar o silêncio exprime uma continuidade social ao trauma individual de cada vítima. Como se o abuso e o assédio ocorressem numa outra dimensão, inconfessável e sem contacto com o resto das nossas vidas sociais e relacionais, uma realidade paralela mas sempre presente, subterraneamente, paralela até à diferença entre a vida pública e a privada, uma outra ordem de relações que toda a gente sabe que existe mas se comporta não a reconhecendo. E que vai continuando a ser ignorada como se não tivesse contacto, nem implicações, com a vida relacional e social de cada uma, mas também de todos.

A exigência de silêncio é cúmplice deste pacto não combinado de que tem de se tolerar essa outra realidade, esse outro lado do espelho onde tudo pode acontecer, desde que não transborde para o lado de cá. Por isso, só fazendo do abuso e do assédio assunto, tanto público como privado, só falando se pode reconhecer esse território debaixo do chão falso das vidas e questioná-lo, tapar-lhe os alçapões, as armadilhas, as mil formas de encurralar.

Será uma ameaça, sim, mas só para alguns. Será desconfortável para muitos mais porque são muitos mais os que com o silêncio, no fundo, têm compactuado com o problema. Lamentamos qualquer má-consciência, mas esta só se resolve a falar. É talvez hora de cada um fazer a sua introspecção sobre o que diz não fazer, mas talvez tolere demasiadamente.

Os homens têm de falar também

São as mulheres que agora falam e contam as suas histórias, mostrando o que é serem o sujeito dessa objectivação. Trazida à luz do dia, à consciência plena, partilhada — a da palavra escrita ou gravada, que não é levada pelo vento —, não se pode continuar a fingir que não tem importância. E são os homens que estão a ser postos em causa enquanto  género que activa ou passivamente participa do trabalho de objectivação.

Ninguém os quer queimar como se queimaram as bruxas, estas bruxas querem apenas que se olhem ao espelho, sem benevolência, e se arrisquem ao desconforto não complacente da imagem que lhes for devolvida. E que assim contribuam para resolver.

Falem também, muitos já o fizeram, antes de mais porque, disponíveis para ouvir, percebem que esta libertação feminina é também uma libertação para outro tipo de masculinidades, não dominadoras, não tóxicas, contribuindo para a construção de uma imagem de homem que não se configure como ameaça para as mulheres, uma imagem do masculino que não tome a mulher como objecto da sua subjetivação. E isso só pode ser bom.

Os homens têm de falar também, e a partir do lugar da sua experiência romperem com a cumplicidade. Quantos homens não testemunharam calados, na condição subordinada das suas vidas profissionais, chefes interpretarem o seu poder hierárquico como uma prerrogativa de disponibilidade de mulheres, a serem servidos por elas, desde a docilidade submissa da secretária, a trazer os cafés de sorriso sempre posto, até à miséria de se ser cúmplice da humilhação de uma colega forçada a ser companhia, num jogo de cambiantes que a poderiam tornar acompanhante, isto mesmo até exibido diante de todos os colegas, todos os machos, a deixar claro quem é o campeão, como um napoleão que reclama em mulheres os despojos de uma batalha entre homens?

A masculinidade dominadora é minoritária precisamente porque a sua lógica é a de quem ganha o prémio. Os outros, aspirantes ou vencidos, compõem o que Raewyn Connell chamou masculinidade cúmplice (“Masculinities”, 1995).

Se a regra do jogo continua a ser a mulher como uma prerrogativa de poder, de status, como uma remuneração não pecuniária, o assédio acaba por ser só o caso que foi longe demais. A condição dominada da mulher, e, além disso, de espólio em disputa entre homens é o substrato que suporta o assédio. A Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego define bem –  “Assédio sexual é todo o comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.”

Mas antes de tudo isto acontecer e sem que nada tenha de acontecer, as regras das relações já estão dispostas. No campo laboral, mas também além dele, nos contactos de fronteira, menos protegidos pela lei do trabalho, onde alguma forma de assimetria cobra a rendição da mulher à condição dominada. A bojarda lançada de um andaime ou de um carro em movimento à adolescente que passa é só a forma disruptiva desta dominação. Ali na rua, humilha-se com a boçalidade a quem não se conhece de parte nenhuma, como se se estivesse a resgatar o privilégio menor que resta aos vencidos do género dominante.

A matéria da humilhação acaba por ser sexual, mas o assunto de fundo é outro: reconhecimento e afirmação de homens vencidos diante de outros homens vencidos. A mulher, muitas vezes conotada com a natureza, o cuidar que tudo acolhe dentro de si, facilmente se torna o referente último do ressentimento social, suportando além da dominação de género, como subcapítulo dela, também a dominação intrínseca à masculinidade dominante e ao exercício do patriarcado.

Mas também na vida privada, no ambiente doméstico, aquele onde a desigualdade, e o seu ressentimento, pode ir da mais subtil à mais crua manifestação, aquele em que os papéis interiorizados mais se podem fundir com o íntimo de cada um e onde será sempre mais difícil desatar o nó pois é um nó que tanto segura.

Por tudo isto, não basta aos homens não participarem da masculinidade de dominação para seguirem de consciência limpa pois isso é frustrar qualquer expectativa de mudança. O #metoo tem de ser também os homens falarem, para romper com a masculinidade cúmplice.

Não confundir com justicialismo

Nada disto tem de ser justiceiro, justicialista ou vingativo, não é demais reforçar este ponto. Essa leitura revela como se percebem mal (ou não se querem perceber) as profundas implicações da decisão de contar.

Contar, dizia Walter Benjamin, não é “transmitir o puro em si do acontecimento”, isso é o que importa menos. Mas “incorporá-lo na própria vida [daquela e] daquele que conta, para comunicá-lo como sua própria experiência a quem o escuta.” É, pois, muito menos acusar, separar, chamar à justiça, do que saldar uma dívida com a verdade vivida, restaurar-se a confiança, religar uma comunidade que escuta e partilha. É muito justo o lema “Ninguém larga a mão de ninguém”. E as falas de todas são a rede que segura cada uma que queira contar as suas histórias.

Quebrar o silêncio não é apenas denunciar o pacto de cumplicidade, é verdadeiramente cortar a sua raiz. E por isso, de tantas formas, o silêncio, não falar, não contar, tornou-se o fulcro de uma resistência da dominação.

Em poucos dias, vimos alimentarem-se mal-entendidos sobre o que é o assédio sexual, extremada a sua representação a ponto de o fazer coincidir com a da violação. Não é verdade que uma mulher ter podido recusar significa que não foi assédio. Dessa forma normaliza-se grande parte dos casos que são assédio e que se caracterizam por condicionamento inaceitável, mesmo não indo tão longe que pratiquem a violência de facto.

Este endurecimento da representação do assédio constitui, na verdade, o sintoma grave da sua normalização. E tal como vimos tomar assédio ilegítimo por sedução legítima, vimos tomar por ilegítimo, criminoso, vil (são vários os caminhos a lembrar a simbólica da bruxa perversa) quem conta sem provas. O juízo sem complacência abate-se sobre quem conta como se tivesse feito justiça pelas próprias mãos, ou tivesse pretendido suspender a presunção de inocência e o funcionamento regular do estado de direito.

E vimos exorbitar o exercício das comparações quando se põe no mesmo plano mulheres que contam de peito aberto, de mãos nuas, sem provas que as protejam, e a delação que acontecia num tempo passado, sem liberdades nem garantias, em que o Estado e a sua ordem legal protegiam o delator.

Como não ver que o delatar do passado e o contar do presente são diametralmente opostos? Como não ver que quem conta a verdade calada vai vulnerável, só com a sua palavra, sem prejuízo do estado de direito e da presunção de inocência? Como não ver que só outras vozes, também só com a sua palavra, podem vir em seu reforço, muito menos para acusar do que para denunciar o pacto não combinado que acima descrevemos?

A desigualdade de género é, provavelmente, a forma mais antiga de desigualdade, arquétipo de todas as outras. É a primeira e mais persistente desigualdade naturalizada, como se se nascesse com ela. É a primeira diferença social essencializada, a primeira discriminação. Vejam bem, é uma ofensa, uma humilhação, que as mulheres carregam desde demasiado cedo. E o assédio é uma extrapolação insuportável dessa humilhação, uma espécie de prova viva de que são menos, como ferros em brasa na carne.

Que espúrio e vão soa então que se fale em mudança de valores como pretexto para que se devam continuar a calar histórias, histórias que muitas vezes não têm mais de uma ou duas décadas. Sem condições, sem ameaças latentes, sem exigências, temos o dever de ouvir. Para não esquecer e assim curar do passado, para não repetir e assim fundar um futuro.

Os autores escrevem de acordo com a antiga ortografia.

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