Cautela e caldos de galinha

Segundo Christine Lagarde, o BCE vai adotar uma postura cautelosa no comportamento das taxas de juro e não pretende reagir “de forma exagerada” mesmo tendo em conta sinais de aumento da inflação.

Decorreu esta semana o Fórum BCE 2021, um encontro de banqueiros centrais e economistas que, pela segunda vez consecutiva, optou por trocar o habitual modelo presencial em Sintra pelo formato virtual.

Nesta edição, dedicada aos desafios da política monetária no pós-pandemia, o primeiro dia do fórum ficou marcado pelas declarações da presidente do Banco Central Europeu (BCE).

De acordo com Christine Lagarde, o BCE vai adotar uma postura cautelosa no comportamento das taxas de juro e não pretende reagir “de forma exagerada” mesmo tendo em conta sinais de aumento da inflação, que considera serem “choques de oferta transitórios que não têm influência no médio prazo”, estando nós a atravessar “uma fase inflacionista temporária relacionada com a reabertura” que se espera termine juntamente com os efeitos da pandemia.

Na minha opinião, o apelo feito por Lagarde na sequência dessa sua análise parece-me algo prematuro. A presidente do BCE pretende que os consumidores da zona euro troquem um comportamento de menor cautela por um maior consumo e assim estimulem a economia e possibilitem a retoma. Pedindo às famílias que optem por gastar mais das suas poupanças acumuladas durante a pandemia, Christine Lagarde sugeriu também aos decisores no campo das políticas públicas que trabalhem para suscitar o otimismo e a confiança.

Como conceito, a lógica de Lagarde afigura-se correta: otimismo gera confiança e essa confiança impele ao consumo. As minhas dúvidas quanto ao seu apelo radicam no entanto em duas raízes: uma, a da poupança das famílias, e a outra, a questão da inflação.

Quanto à primeira, em especial no caso português, cuja taxa de poupança das famílias era muito inferior à europeia nos tempos pré-pandemia, ela aumentou para 14,2% do rendimento disponível, refletindo uma redução de 1,7% na despesa de consumo. Se tivermos em conta que no primeiro trimestre de 2019, portanto no contexto pré-pandémico, a taxa de poupança média dos cidadãos europeus era de 12,6%, observamos que idealmente, em termos de cautela, a descida da poupança dos portugueses não deveria ultrapassar em média 1,5%.

Já relativamente à inflação, considero que será mais adequado aguardar até verificarmos se o aumento dos preços é tão transitório como a presidente do BCE afirma acreditar. Aliás, essa era também a opinião anterior da secretária norte-americana do Tesouro, Janet Yellen, e do presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, mas que vieram esta semana – ouvidos pela comissão senatorial da Banca – reconhecer que a inflação nos EUA vai durar mais do era que esperado pelos seus cálculos.

Em suma, é bom que retomemos os nossos hábitos de consumo mas, em simultâneo, tenhamos também o cuidado de assegurar um bom rácio para as nossas poupanças. Como alerta e bem o nosso ditado popular: “Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.

 

 

Harry Murphy/Web Summit

Boa notícia a de que a Web Summit em Lisboa voltará ao seu formato presencial já no início de novembro, tendo sido anunciada uma expectativa de 40 mil participantes e visitantes. Em paralelo com o evento, deverá também ter lugar a primeira assembleia geral presencial da European Startups Nations Alliance, entidade que monitoriza o estado do ecossistema na Europa e tem sede em Lisboa.

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