CEO da CGD defende que a consolidação bancária vai decorrer “nos próximos dois anos”

A consolidação da banca poderá ser impulsionada pelos resultados dos bancos nos próximos trimestres, defendeu o CEO da CGD que considera que um banco público tem de ter dimensão para poder ser relevante no mercado. O BCP defende que a consolidação será cross border. Aumentos de capital para superar a crise? CEO do BCP e o CEO do BPI rejeitam que haja essa necessidade.

Cristina Bernardo

“Há uma cronologia de eventos. Vamos ter as contas de 2020, vai haver assembleias gerais em maio do ano que vem, há várias instituições que vão ter de ver quais as perspetivas que têm, face aos resultados [que irão apresentar], em termos de rentabilidade e de capitais próprios [disse sem nomear]”, foi a resposta do presidente executivo a Caixa, questionado no painel “Que futuro para a banca?” sobre um provável processo de consolidação na banca no futuro.

Segundo Paulo Macedo, a consolidação bancária vai decorrer “nos próximos dois anos”, até porque essa necessidade vai revelar-se à medida que vão sendo fechadas as contas anuais. “Haverá instituições que têm de ver que perspetivas é que têm face aos resultados”. Não foi possível saber se estaria por exemplo a falar do Banco Montepio.

Mas o que parece evidente é que o CEO da CGD antevê que o setor vá entrar num processo de consolidação nos próximos anos e que se começará a desenhar dentro de meses, quando os bancos apresentarem contas.

“À Caixa, de certeza que não é indiferente a consolidação. E ela vai acontecer”, disse o presidente da comissão executiva da CGD, Paulo Macedo, na conferência Banca do Futuro, organizada pelo Jornal de Negócios, que se realizou esta terça-feira, 27 de outubro, com a presença dos CEO dos principais bancos nacionais (CGD, BCP, Novo Banco, Santander e BPI).

Apesar de garantir que “não está no horizonte” para a CGD qualquer aquisição, Paulo Macedo frisou que o processo de consolidação “é algo que também não é minimamente indiferente” ao banco público. “Em termos de intervenção, é algo que não está no nosso horizonte, mas também não nos é indiferente”, disse.

A CGD está, neste momento, sob um plano estratégico acordado com a Comissão Europeia que impede aquisições, mas que acaba no final deste ano.

Mas se houver consolidação, “a Caixa é claramente ultrapassada por outros bancos” e, disse o banqueiro, “não temos uma fixação se somos o primeiro banco, o segundo ou o terceiro, mas precisamos de dimensão para ser um banco público”. Isto é, um banco público precisa de ser o maior para poder ser relevante no sistema.

Por sua vez, Miguel Maya, CEO do BCP, disse que não tem “dúvidas nenhumas” de que a consolidação vai acontecer. Mas, defendeu que “o enquadramento está feito para forçar a consolidação europeia. Os incentivos estão criados para levar a deslocação de valor para fora de Portugal”. O enquadramento específico de Portugal é favorável a consolidação europeia, defendeu o presidente do Millennium BCP.

“O tema da consolidação é algo que vai acontecer, é uma tendência de fundo e esta crise vai ser um acelerador da consolidação. Primeiro nas consolidações domésticas e depois na consolidações cross border à medida em que o enquadramento regulatório vá sendo transversal”, referiu Miguel Maya, que mais uma vez criticou o enquadramento regulatório em Portugal que força uma “consolidação europeia”. O presidente do BCP deu vários exemplos daquilo que deixa os bancos nacionais em desvantagem face aos concorrentes europeus, mas o seu preferido é a existência da obrigatoriedade da banca capitalizar o Fundo de Resolução nacional (dono de 25% do Novo Banco). Contribuições que custam 47 milhões de euros por ano ao BCP.

Mas Miguel Maya não esqueceu a crítica à proibição determinada pelo Parlamento de os bancos cobrarem algumas comissões ou o facto de não poder cobrar juros nos depósitos.

Por outro lado, António Ramalho, CEO do Novo Banco, a instituição que poderá ir para o mercado depois de 2021, defendeu que o mercado está estabilizado em cinco entidades bancárias há décadas. “Estas cinco instituições foram objeto de uma grande revolução em 2020, mantendo-se o princípio das cinco instituições, que prevalece”. Mas não nega que há um “desejo apregoado” pelas autoridades europeias de promover a consolidação transfronteiriça.

O que tem existido, lembrou o CEO do banco detido em 75% pela Lone Star, é a “consolidação ibérica”.

“Essa consolidação só não tem sido muito perniciosa, porque os colegas espanhóis percebem as características próprias da banca portuguesa”, defendeu.

Já João Oliveira e Costa, CEO do BPI defendeu que “há espaço para uma redução do número de players”. O CEO indigitado do banco do CaixaBank salientou a necessidade de as instituições ganharem dimensão para fazer face às “margens esmagadas” e aos elevados custos regulatórios.

Questionados sobre a possibilidade de terem de aumentar capital face à crise pandémica, os dois CEO do BPI e do BCP descartaram essa necessidade. “Estou absolutamente convencido que o BCP não necessitará de nenhum aumento de capital para lidar com os desafios que tem pela frente, isto com base no conhecimento que temos hoje. Afasto liminarmente”, disse Miguel Maya.

“Do que nós vislumbramos, não estamos a ver, para já, necessidades de aumento de capital nem alteração do que temos vindo a seguir como estratégia”, disse por sua vez, João Pedro Oliveira e Costa, presidente executivo indigitado do BPI,

João Pedro Oliveira e Costa considera que haverá uma competição pela dimensão, tendo em conta as “margens muitíssimo esmagadas, e os custos de regulação quase independentes da dimensão”. Os bancos vão ter de ter grande capacidade de intervenção, até em nome de uma oferta de última geração aos clientes. “É preciso haver muito investimento e, para esse investimento, é preciso haver muito capital”.

Por fim o CEO do Santander em Portugal, Pedro Castro e Almeida, disse que foram os bancos de capital estrangeiro que conseguiram apoiar o país na saída da crise da dívida soberana.

O ponto que não está a ser discutido, defende Pedro Castro Almeida, é outro: “Que tipo de capital estamos a atrair para este país? Porque não atraímos fundos de pensões da Noruega, EUA, Canadá?”, perguntou o presidente executivo do Santander Totta.

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