Chega de (des)Venturas

A nós, neste momento, compete-nos cumprir as regras de sanidade e votar. Seja em quem for desde que contra todas as formas de ditadura, incluindo as que se não assumem como tal.

“When the eagles are silent, the parrots begin to jabber.”  – Churchill

(Em tempos de pandemia, o Sporting anunciou um despedimento colectivo, abrangendo, entre outros, pessoas que são símbolos do Clube e após um lay-off onde lhes prometeu que não os iria despedir. As direcções passam mas os símbolos deviam ficar. Nem tudo se reduz a uma folha de excel e há instituições que são maiores – e diferentes – do que a forma como se escolheu tratar um conjunto de funcionários que tudo deu de si para os interesses do Sporting Clube de Portugal. Mais do que nas frases feitas, as pessoas medem-se nas atitudes. Quer quando não têm poder, quer principalmente quando o têm.)

Uma das leis de Murphy defende que “se existe alguma possibilidade de diversas coisas correrem mal, aquela que causar maior dano será precisamente a que correrá mal”. Isto é, já não nos bastava a desventura da pandemia, nesta campanha houve também o próprio Ventura, uma marioneta nas mãos de outros, muito mais perigosos.

Não desconheço que existem muitas vozes que consideram que se deve ignorar o fenómeno do Chega, alegando-se que quem mostra oposição permite a continuação do (triste) espectáculo.

Sucede que, entre o cada vez mais estreitar do confinamento e à beira das eleições presidenciais, assistimos diariamente a um crescendo de afirmações e de posturas que indiciam, mais do que o populismo que todos apontam, tiques ditatoriais.

Mais do que o caricato das críticas a cores de batom e à forma física de uma candidata, das quais se podem só retirar o machismo inerente; mais do que uma visão dos mais velhos que só Freud poderá, eventualmente, explicar; o que assusta no discurso de Ventura é, a título principal, o que ele não diz e deixa meramente insinuado.

Não precisamos de mais vítimas. A Covid-19 tem tratado de as arranjar, seja directa, seja indirectamente. Que esta pandemia já trouxe uma crise, parece inegável. Que essa crise seja aproveitada para se galvanizarem movimentos racistas, xenófobos, machistas e com tiques ditatoriais é algo que já foi feito, por exemplo, na Alemanha, com os resultados conhecidos.

Cair no mesmo erro, seja pelo cansaço, seja pelo medo, é algo a que não nos podemos permitir. Mesmo quando a canção parece doce ou ritmada.

Há papagaios que falam e nunca se calam, perante a nossa inércia. No final de tudo isto, a culpa é mais nossa do que deles, que apenas cumprem a missão que lhes destinaram. A nós, neste momento, compete-nos cumprir as regras de sanidade e votar. Seja em quem for desde que contra todas as formas de ditadura, incluindo as que se não assumem como tal.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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