Chegou a hora da demissão?

São precisas mais soluções para uma classe média empobrecida, cujo papel é essencial para o funcionamento da sociedade e que neste momento se limita a sobreviver.

Olhando para o nosso mundo, a disrupção causada pela pandemia será mais prolongada do que julgávamos e muito do que existiu não voltará a ser como era. Alguns teimam em voltar para trás, enquanto outros pretendem moldar novos futuros. Para onde caminhamos?

Se olharmos para os EUA, muito se tem escrito sobre o número recorde de demissões registadas no país ao longo de 2021. Em abril deste ano, quatro milhões de norte-americanos abandonaram o seu emprego, a maioria em busca de oportunidades laborais mais saudáveis. Este êxodo foi cunhado de “The Great Resignation” e parte da força de trabalho que se está a despedir pertence à faixa etária dos 25-40 anos, representando setores afetados e não afetados pela Covid-19.

A pandemia expôs uma cultura do trabalho tóxica, com más condições, salários baixos ou estagnados, horários prolongados equipas sobrecarregadas ou em burnout. Com o conforto do trabalho remoto e horários de trabalho flexíveis, em que os trabalhadores poupavam horas em deslocações e tinham mais tempo de lazer, muitos setores começaram a adotar esse modelo como o mais desejado.

Mesmo a experiência do Rendimento Básico Incondicional, que acabou por ser posta em prática em todo o globo de uma forma rudimentar, dando apoio financeiro aos setores e famílias mais afetados, permitiu repensar modos de vida que ajudaram muitos a libertar-se de um sistema de exploração que só beneficia a minoria do 1%. Mas falamos dos Estados Unidos, o país que, normalmente, dá início às grandes vagas de mudança.

Portugal só em parte está sintonizado com este ciclo. Se é verdade que apenas uma parcela da força de trabalho, constituída por quadros bem remunerados, está a operar  um tipo de mudança que vai no sentido de uma melhor cultura de trabalho e mais saudável, em harmonia com a família e comunidade, também é verdade que a classe média está incapacitada de largar os seus empregos sem ter outros meios de subsistência. E, quando o faz, é porque deixa para trás algo verdadeiramente inaceitável ou porque tem de escolher entre trabalho e família.

São diferentes narrativas que contam realidades bastante distintas e, acima de tudo, bastante desiguais. Para uns, a luta ainda é por melhor salários e condições de trabalho. Para outros, já está no horizonte um novo paradigma de trabalho.

É animador pensar que aquilo a que se chamou “The Great Resignation” nos EUA poderia ser o início de um movimento global para tornar o mundo melhor. Mas, por mais que desejemos acalentar essa ilusão, terão de ser propostas mais soluções para uma classe média empobrecida, cujo papel é essencial para o funcionamento da sociedade e que neste momento se limita a sobreviver.

No caso português, o turismo pode ter permitido que muitas microempresas gerassem lucro efetivo, mas circunstâncias imprevisíveis, como a pandemia, mostraram como a natureza altamente volátil dessa indústria não permite um modelo estável e sustentável.

A disrupção que vivemos irá espoletar ainda muitas crises antes que possamos começar a implementar as soluções, mas há esperança no sentido de que muito daquilo que almejamos enquanto sociedade ideal já foi pensado. E estou convicta de que é no plano político que teremos de exercer a pressão para a concretização de um novo mundo.

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