O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, em Busan, na Coreia do Sul, foi mais do que um protocolo: condensou a mudança de eixo do poder mundial. Já não vivemos sob uma hegemonia incontestada. A China ascende sem disparar um tiro, pela paciência estratégica, pela integração produtiva e por uma diplomacia que prefere persuadir em vez de impor. Trump buscava ganhos imediatos; Xi opera no horizonte das décadas. É o choque entre a urgência da política e a serenidade civilizacional.

O novo poder mede-se menos por armas e mais pela capacidade de definir o tempo. Os Estados Unidos ainda adotam a lógica da coerção; a China avança pela influência. Foi assim com duas peças aparentemente banais: soja e minerais de terras raras. Ao redirecionar compras agrícolas e sinalizar restrições a insumos críticos, Pequim pressionou simultaneamente o agronegócio, a tecnologia e a defesa norte-americanos — a geopolítica do século XXI também se joga na cadeia de suprimentos.

Apesar da crítica ocidental ao quase monopólio do refino de terras raras, convém lembrar que a predominância chinesa nesse setor decorre, em parte, da decisão ocidental de terceirizar a poluição e as etapas intensivas de refino. E quanto à política restritiva de Pequim, recordar que os EUA também recorrem, há décadas, a controles de exportação quando julgam que seu interesse nacional está em risco. Não se trata de culpa, mas de escolhas sistémicas que geraram interdependências assimétricas.

Ademais, em paralelo, contrariando os economistas ocidentais que se recusam a estudar o modelo chinês de desenvolvimento com uma perspectiva isenta, Pequim constrói confiança monetária com prudência e lastro: acumula ouro, robustece instituições e amplia as liquidações em RMB. Enquanto isso, o dólar sustenta-se na fé e na profundidade financeira — “In God We Trust”, além de um abuso sistêmico desse privilégio exacerbado.

A lição maior que fica para o Ocidente: transições de poder não precisam culminar em guerra. A China contradiz a leitura determinista da armadilha da Guerra Fria: reafirma a relevância do equilíbrio, não da conquista. Liderança duradoura exige transparência, autocontenção, codesenvolvimento e regras compartilhadas.

E a Europa, onde ficará neste novo cenário? Entre a segurança ancorada nos EUA e a realidade de cadeias com a Ásia, o continente terá de escolher menos slogans e mais estratégia: autonomia responsável, reindustrialização, tecnologia crítica e uma política externa que não confunda valores com autossabotagem. Quem souber harmonizar princípios e interesse — ditar o ritmo, não o volume — influenciará o século.

Para isso, será decisivo diversificar a energia sem recriar dependências, proteger campeões industriais sem sufocar a competição, financiar inovação profunda e defender um mercado digital único, além de rever a questão da guerra na Ucrânia. É preciso articular uma estratégia para além da gestão de crises. Se hesitar, a Europa será espectadora; se agir, poderá ser árbitro. O futuro, como sempre, pertencerá a quem compreende o tempo e sabe convertê-lo em confiança.