Christchurch, uma catarse é precisa

As sociedades europeias cometeram o enorme erro de darem uma forte ênfase ao multiculturalismo em vez de privilegiarem a integração e a assimilação.

Fomos recentemente confrontados com mais um ataque terrorista, desta feita perpetrado por um radical de extrema-direita, à semelhança de muitos outros que não têm merecido por parte da comunicação social a devida atenção.

O terrorismo jihadista tem desviado a atenção da opinião pública de outros tipos de terrorismo, ameaças porventura com maior impacto e alcance para as sociedades europeias. Isto ocorre num momento em que se verifica uma significativa subida eleitoral da extrema-direita em vários países europeus onde a crise migratória se tem feito sentir de um modo mais agudo. É necessário condenar estes atos, mas não nos podemos limitar à condenação. Temos de indagar urgentemente porque ocorrem.

Tirando partido da imigração massiva que tem assolado a Europa e da ameaça percebida da islamização, a extrema-direita criou uma narrativa que tem vindo a empurrar importantes setores da população para a xenofobia e a islamofobia. Isso só acontece porque algo vai mal na Europa e as elites políticas não o querem perceber. O sonho de construir sociedades multiculturais é bem intencionado, mas, no longo prazo,  parece não ser capaz de promover projetos políticos socialmente consistentes.

Apesar de muitos não o quererem admitir, a cultura continua a ser relevante. As sociedades europeias cometeram o enorme erro de darem uma forte ênfase ao multiculturalismo em vez de privilegiarem a integração e a assimilação. E é por a cultura importar que a assimilação é difícil ou mesmo impossível. Diferenças culturais tendem a produzir comunidades distintas e consequentemente separadas, independentemente da bondade das intenções dos promotores destes projetos.

A partir dos anos 90, a identidade religiosa dos muçulmanos europeus deixou de se subordinar às identidades étnicas, nacionais ou a quaisquer outros critérios identitários. Registou-se uma evolução significativa na sua base identitária. A generalidade dos muçulmanos não se revê, nem integra o sistema de partidos políticos das democracias liberais. Para as correntes muçulmanas mais moderadas ser muçulmano significa ser social e politicamente empenhado. Como afirmou Tariq Ramadan, não existe consciência islâmica nem consciência social sem consciência política, incentivando os muçulmanos a unir o compromisso religioso ao ativismo político.

Mas os desafios para a Europa não são apenas de natureza identitária. Segundo o relatório da “Confederação dos Empregadores Dinamarqueses”, de 2017, um terço dos beneficiários do sistema da segurança social dinamarquesa eram imigrantes, o que significava um aumento de 82% apenas em sete anos. Será difícil explicar a um reformado dinamarquês por que é que a sua pensão não é aumentada. São factos incontornáveis que se repetem em várias sociedades europeias.

Lamentavelmente, as elites políticas europeias têm-se remetido ao conformismo, evitando a todo o transe discutir estes assuntos, fazendo deles tabu. Fingem que não existem, e refugiam-se em chavões e narrativas politicamente corretas. É incontornável que a imigração em massa e as comunidades muçulmanas começam a colocar um sério desafio às sociedades europeias. Não é, pois, de estranhar que a extrema-direita aproveite o vazio, o explore e marque pontos. Perante a inação, não vale a pena argumentar estridentemente com o populismo. Antes de olharmos para os outros, convinha que olhássemos para nós.

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