Combater a pandemia é combater a desigualdade

De acordo com os especialistas ouvidos pelo FMI, o coeficiente de Gini – que mede a desigualdade com base nos rendimentos líquidos – aumentou constantemente após esses acontecimentos.

Está na altura de olharmos com redobrada atenção para o tema da desigualdade e o que se torna indispensável fazer para evitar que a pandemia agrave, mais ainda, o fosso entre ricos e pobres. Esta semana, o World Economic Forum (WEF) chamou a atenção para pesquisas do FMI que demonstram que a COVID-19 provocará um efeito negativo em termos distributivos, tal como sucedeu em casos semelhantes anteriores como a SARS, MERS, Ebola ou Zika.

De acordo com os especialistas ouvidos pelo FMI, o coeficiente de Gini – que mede a desigualdade com base nos rendimentos líquidos – aumentou constantemente após esses acontecimentos. E, se tal sucedeu no passado, ainda mais acontecerá agora na sequência da Covid-19, vista pelo WEF como “a maior calamidade económica desde a Grande Depressão”.

Os efeitos negativos mais duradouros das pandemias ocorrem principalmente devido à perda do emprego e à diminuição nos rendimentos e na oferta de trabalho. De acordo com as conclusões do FMI, as pandemias tiveram um impacto muito díspar no emprego de pessoas com diferentes níveis de escolaridade: a situação daqueles com níveis mais avançados de escolaridade dificilmente é afetada, enquanto o emprego de quem tem apenas níveis básicos de escolaridade cai acentuadamente, mais de 5% ao final de cinco anos.

Tendo isto em conta, para o FMI (e o WEF) a linha política a seguir pelos governos deve proporcionar uma atenção específica à prevenção de danos a longo prazo (ou “cicatrizes”) no que diz respeito aos meios de subsistência dos menos favorecidos na sociedade. Ações concretas, direcionadas e exaustivas tentativas extenuantes e direcionadas, estabelecendo mecanismos de compartilhamento de riscos e reforços da assistência social para proteger os mais vulneráveis das futuras adversidades económicas.

A lista de opções mencionadas inclui o aumento dos apoios aos cuidados de saúde e subsídios de desemprego principalmente “para os segmentos mais pobres da sociedade, que não dispõem de colchões de poupança”. O FMI fala mesmo de um novo “New Deal” que expanda os sistemas de assistência social e melhore os programas públicos para a criação de emprego, a concessão de oportunidades de financiamento para sustentar o emprego e medidas tributárias progressivas, eventualmente através de uma “sobretaxa de solidariedade”.

Com estas e outras medidas a conclusão é clara: Os legisladores e políticos devem adotar já um modelo de ação vincadamente reformista para que, quando inevitavelmente ocorram choques futuros, incluindo por exemplo os efeitos das mudanças climáticas, os mecanismos de partilha de riscos e de assistência social protejam os mais vulneráveis muito melhor do que no presente. Vindo de onde vem, este é um alerta que deve ser ouvido com toda a atenção.

Recomendadas

O regime em julgamento

A propósito de António Mexia, o senhor que se segue, lembremos a natureza humana para prevenir a economia, com a Efacec e a TAP bem presentes: quanto maior for o Estado, maior pode ser a pouca vergonha

Os Elefantes Brancos

Estas últimas duas décadas ficaram marcadas pela subida estrondosa da dívida pública oficial e oficiosa, ou seja, aquela que ainda ai vem.

Não TAP(ar) os olhos porque “eles” continuam a mexer

“Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.”
Comentários