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Como os óculos de Macron fizeram disparar em 28% as ações da iVision Tech

Segundo a Reuters, as ações da iVision Tech, empresa italiana proprietária da histórica marca francesa Maison Henry Jullien subiram 28%, acrescentando aproximadamente 3,5 milhões de euros à capitalização bolsista da empresa num único dia de negociação.
23 Janeiro 2026, 09h06

Quando Emmanuel Macron surgiu no palco do Fórum Económico Mundial, em Davos, de óculos de sol estilo aviador com lentes espelhadas, poucos imaginavam que aquele acessório acabaria por dominar tanto o debate mediático como os próprios temas geopolíticos da cimeira.

Em segundos, a imagem do presidente francês começou a circular nas redes sociais, acompanhada de uma pergunta recorrente: estaria Macron a enviar uma mensagem política a Trump?

As comparações foram imediatas. O visual remetia para Pete “Maverick” Mitchell, o piloto de caça rebelde interpretado por Tom Cruise no clássico Top Gun. Um símbolo de arrojo, desafio à hierarquia e autoconfiança em ambientes de alta pressão. Se viu o último filme decerto recorda os voos no limite que a personagem fazia desafiando a própria vida. Num contexto marcado por tensões transatlânticas, ameaças de tarifas e declarações polémicas vindas de Washington, muitos viram nos óculos um gesto calculado: alguém na Europa estaria finalmente disposto a enfrentar Donald Trump de frente, mesmo que através de lentes espelhadas.

Outros foram mais longe e interpretaram a escolha como uma ironia subtil dirigida ao antigo presidente norte-americano Joe Biden, conhecido pelo uso frequente de óculos de sol aviador — um detalhe estético que Trump usou repetidamente como alvo de troça política.

A explicação oficial (e menos épica)
Segundo revelou o jornal britânico The Guardian, a razão para o visual pouco habitual era, afinal, bastante mais simples: Macron estava a ocultar uma hemorragia subconjuntival, um pequeno vaso sanguíneo rebentado num dos olhos, condição que descreveu como “totalmente benigna”. Ainda assim, nem o próprio presidente resistiu à tentação simbólica, referindo-se ao problema como “l’œil du tigre” — uma alusão directa à canção Eye of the Tiger, imortalizada no cinema por Rocky III.

Do palco de Davos para os mercados
O impacto do momento não ficou apenas no campo simbólico. De acordo com dados avançados pela Reuters, as ações da iVision Tech, empresa italiana proprietária da histórica marca francesa Maison Henry Jullien, dispararam cerca de 28% após a divulgação das imagens de Macron em Davos. A valorização acrescentou aproximadamente 3,5 milhões de euros à capitalização bolsista da empresa num único dia de negociação.

O modelo usado pelo presidente — os Pacific S 01 Double Gold, vendidos por cerca de 659 euros — é produzido artesanalmente na região do Jura, em França, seguindo técnicas tradicionais de ligação de ouro ao metal. A súbita exposição global levou a um aumento abrupto da procura e chegou mesmo a provocar falhas temporárias no site da marca, segundo responsáveis da empresa citados pela Reuters.

Quando a política encontra o cinema
A associação a Top Gun não foi apenas estética. Tal como o Maverick de Tom Cruise, a imagem de Macron transmitiu uma ideia de ousadia e independência num cenário dominado por jogos de poder. Mesmo que involuntariamente, os óculos transformaram-se num símbolo visual de firmeza europeia — ou, pelo menos, numa demonstração de como a política contemporânea se cruza cada vez mais com narrativas culturais.

No final, fica a ironia: um problema ocular benigno acabou por gerar um dos momentos mais comentados de Davos, impulsionar uma empresa centenária nos mercados financeiros e colocar Emmanuel Macron, ainda que por instantes, no papel de protagonista de um filme que nunca existiu — Top Gun: Davos.


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