Conferência que começou como acidente quer mudar as cidades

“Depois de anunciarmos, alugámos um espaço onde cabiam 200 pessoas mas nunca pensámos encher. No fim, acabámos com mais de mil pessoas de mais de 30 países”, afirma o fundador do projeto.

Gerald Babel Sutter, criador da Urban Future

Oslo passou no passado fim de semana, dia 10 de janeiro, o testemunho de Capital Verde Europeia a Lisboa, recebendo o galardão para 2020. Como não apenas de ‘verde’ se faz uma cidade, vão ainda ser abordados temas como a saúde e alimentação saudável, além do ambiente e alterações climáticas.

Com o foco em Lisboa, a capital portuguesa vai acolher durante este ano quatro grandes conferências: Conferência dos Oceanos, Planetiers World Gathering, Congresso Europeu de Mobilidade e Urban Future. Foi precisamente sobre a ambiguidade do nome da última conferência que falámos com Gerald Babel-Sutter, o responsável pela criação do certame.

O objetivo de Gerald e da sua pequena equipa nunca foi criar uma conferência que superasse os três mil participantes, mas um workshop baseado em Graz para um máximo de 20 pessoas. “Criámos o workshop em conjunto com a cidade”, explica ao Jornal Económico (JE), sendo que grande parte da criação nasceu porque “já não conseguíamos ouvir mais as palavras smart cities”. 

Um dos maiores desafios das cidades é conseguir desempenhar uma decisão depois desta já ter sido tomada. Foi com este objetivo que o pequeno workshop foi criado, mas que rapidamente se expandiu para uma conferência. “A questão centrou-se no facto de ser interessante convidar projetos sustentáveis de toda a Europa, levando gestores de projetos a Graz, de forma a realizar um workshop onde tenham tenham a informação e para que a possam implementar”, afirmou.

“Mais tarde pedimos para eles falarem das coisas que não resultaram e a razão pela qual não resultaram como o perspetivado, abordando os problemas críticos e falando abertamente dos mesmos”. Este é um dos pontos fulcrais da Urban Future, que quer ajudar a que as cidades se entreajudem falando das conquistas e das derrotas até conseguirem implementar o projeto.

Com o passa a palavra, e ainda no início da projeção em Graz, Viena ligou para Gerald Babel-Sutter e perguntou-lhe se não queria apresentar o projeto na capital austríaca, sendo que a equipa manteve um grupo de 30 pessoas a assistir ao workshop. “Outras cidades austríacas foram ligando e mostrando-se interessadas no que estávamos a desenhar. Assim, decidimos tornar o evento público e anunciá-lo mas foi uma bola de neve”, explica.

“Depois de anunciarmos, alugámos um espaço onde cabiam 200 pessoas mas nunca pensámos encher. No fim acabámos com mais de mil pessoas de mais de 30 países”, afirma. Entre participantes de partidos políticos sentados no chão a salas onde era impossível entrar, “estava toda a gente entusiasmada e a atmosfera era muito descontraída”.

Algo que o grupo percebeu que as pessoas vinham das mais diferentes disciplinas, indo desde a mobilidade, aos resíduos, energia e mercado imobiliário, sendo que os participantes tanto pertenciam a organizações independentes como ao governo.

Analisadas as presenças no que se tornou a conferência, Gerald notou que todos os presentes “tinham uma forte e incrível paixão pessoal em torno da sustentabilidade”. “O envolvimento pessoal foi absolutamente crítico e o objetivo é juntar as pessoas de diferentes setores, não para falar do que tem de ser feito mas de como se conduz a mudança e como se faz acontecer”.

Um exemplo deste método é que numa das edições passadas, o antigo mayor de Londres, Ken Livingstone, que falou sobre a introdução de uma taxa ao congestionamento da cidade. “Este é um tópico aborrecido, mas o ex-mayor não falou de como o conseguiu fazer, mas de como foi ser o mayor responsável por um projeto que toda a gente odiava e de como é dar a cara por um projeto que ele achava realmente importante para a cidade”, comentou com o JE. Gerald explicou que falar sobre o lado pessoal é atrativo para muitas pessoas, porque elas acabam por se relacionar e aplicar o que aprenderam.

A escolha de Lisboa, independente da Capital Verde Europeia

Questionado sobre a diferença que a Urban Future pode fazer por Lisboa, Gerald sustenta que “ter as pessoas certas na sala faz a diferença”. “O tipo de conversas que começam na nossa conferência são muito diferentes, em comparação com as outras, onde o objetivo é vender um produto para as marcas estarem presentes”, aponta, esclarecendo que “o nosso objetivo sempre foi juntar as mentes mais brilhantes e ativas de hoje para partilhar o que elas estão a desenvolver” para que outros tenham motivação para chegar ao fim.

Embora Lisboa seja a Capital Verde Europeia deste ano, este foi apenas um pormenor na escolha da capital portuguesa para a quinta edição da conferência. Gerald confidenciou que foram abordados por 20 cidades mas decidiram escolher “um lugar onde existem muitas dificuldades em diferentes áreas”, sendo que Lisboa foi a escolha para 2020.

“Não tiveram um começo fácil [referindo-se à crise económica no início de 2000], por isso mostrar o exemplo de cidades como Lisboa, que teve um ambiente difícil, é uma verdadeira motivação para outras cidades que não são Copenhagas [o Santo Graal da sustentabilidade] mas muito mais Lisboas”, admite.

Interligando o programa com a história do país, Gerald destaca ainda “o facto de ter saído imensa gente da cidade porque o país estava em crise económica e, de repente, encontraram ‘a vaca gorda para ser abatida’, que foi o turismo e o dinheiro que começou a entrar na cidade”, porque as pessoas começaram a regressar à capital e esta regenerou.

O segundo tópico, ainda que relacionado com o anterior, foi a escala do turismo e os problemas que este tem agarrado. “Estão a enfrentar a gentrificação, situações em que as pessoas não têm poder financeiro para continuar na mesma zona. Ou seja, as cidades têm grandes áreas que querem regenerar mas não sabem que existe a opção de o fazer sustentavelmente”, explicou.

O último tópico que atraiu a Urban Future a Portugal foi a água, um dos grandes problemas das cidades do sul da Europa, mas onde “Lisboa está a fazer um trabalho fantástico”. “Talvez os cidadãos ainda não se tenham percebido, mas a poupança de 40% no consumo de água dos municípios, em cinco anos tornou-se incomparável no planeta”, abordando assim o sistema de água reciclada criada pela autarquia.

“Esta alteração tirou muita pressão do sistema de água potável da cidade porque a empresa teria de investir muito dinheiro em infraestruturas para aumentar a capacidade. Mas agora, porque há muita poupança, a empresa conseguiu investir no aumento de capacidade e na melhoria da rede. De repente, foi possível instalar novos tubos, reduzir as fugas que é um grande problema nas cidades e Lisboa colocou-se no top5 com menos fugas”.

Parcerias mais improváveis entram no jogo

Entre diversas parceiras, a Urban Future conta com a WWF, a Daimler e a Airbus. Todas diferentes mas que contribuem para a visão final de Gerald Babel-Sutter e da equipa de 10 elementos.

A conferência foi abordada pela própria Daimler. Embora a empresa tenha sido avisada que seria encarada como o ‘mau da fita’, quiseram apresentar o seu ponto de vista no mercado e na sociedade. “Expliquei-lhes que o evento ia acontecer em Oslo, sendo que um dos tópicos principais do evento seria um futuro sem carros nas cidades”, mas eles mesmo assim quiseram continuar com o desafio, porque “as cidades não iriam conseguir resolver os desafios sozinhas”.

“Acho que a Daimler quis utilizar a conferência como plataforma para entender as cidades e as suas motivações. O representante que esteve na conversa teve um momento difícil em palco porque enfrentou perguntas complicadas mas foi respeitado por todos”, apontou o austríaco. “Além de pertencer à conversa, a empresa admitiu que também quer fazer parte da solução. Porque a solução não pode passar por abolir os carros e fazer com que os fabricantes fechem os seus negócios, porque de repente existem mais de 5 milhões de pessoas desempregadas na Europa”.

Também a Airbus participou numa das edições, com o foco no ‘Urban Air Mobility’ que trata de mobilidade com drones de larga escala, algo que a própria empresa assumiu ser “um grande tópico na Ásia e em África mas que na Europa não se fala”. “A Airbus quis então abordar porque razão isto não é falado na Europa, onde temos menos espaço do que em qualquer outro continente”.

Então, esta ideia quase de ficção científica está operacional no Ruanda, que acabou por designar um corredor exclusivo, entre duas cidades, para drones. “Este foi o sítio ideal para eles, porque os desafios das cidades em África enfrentam é que têm um grande boom mas não têm dinheiro para investir em infraestruturas”.

O fundador do workshop que se transformou em conferência numa questão de semanas afirma ainda que “os únicos parceiros que nós não aceitamos são as empresas petrolíferas e de armamento”, sendo que de resto convidam todos a participar nas conversas geradas com pontos de vistas diferentes.

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