Confinados e consumistas

A internet afirmou-se como a nova arena para a superação da crise de produção capitalista e evitou (ou será que adiou apenas?) uma nova revolução económica e social.

A sociedade consumista não desapareceu na fase da crise sanitária motivada pela pandemia, apenas encontrou outras formas de afirmação. Durante este tempo de confinamento, reforçou-se a oferta de bens e serviços, incluindo no sector da cultura, através da internet, com maior destaque para os lives de músicos, palestras e aulas virtuais. As televisões transformaram-se, igualmente, em salas de aula, através da telescola. Resumidamente, os sujeitos assumiram-se como agentes da rede e mantiveram uma actividade humana imaterial.

Assistiu-se, ainda, à afirmação de uma narrativa sobre o impacto da pandemia, numa perspectiva filosófica, que foi bastante bem resumida pelo Professor de Filosofia de António Marques no seu texto “o eloquente caso do dr. Li Wenliang”. Uma narrativa que, ainda assim, não conseguiu superar os níveis (hiperbolizados) dos relatos jornalísticos da tragédia e do sofrimento causado pelas mortes associadas à pandemia.

Passou a imperar, no espaço público, um discurso baseado numa visão apocalíptica da tragédia humana. Fizeram-se das mortes meros números, por respeito à privacidade, mas com enormes prejuízos para a dignidade humana, sempre necessária na compreensão do problema. A nossa relação com os números é complexa pela desumanização associada aos mesmos.

Como forma de ampliar o nosso desejo consumista, as companhias de telecomunicações, numa perspectiva de estratégia comercial, ampliaram os planos de internet, fomentando, assim, o consumo de todo o tipo de produção virtual. Tornámo-nos, durante este período, de forma paradoxal até, sujeitos hiperactivos e hiperconsumistas, apenas contidos pela questão sanitária.

É possível que, neste momento de regresso à normalidade, comecemos a sentir os primeiros efeitos desta overdose de produção e de transmissão de actividades pela internet.

Durante a fase de consumismo em pleno confinamento, assistiu-se, mais uma vez, à afirmação do mito segundo o qual todos os sujeitos teriam as mesmas oportunidades de consumir na (ou através da) internet. A desigualdade agudiza-se em períodos de crise e mostra a sua verdadeira face quando os sujeitos são forçados a viver uma situação semelhante.

Neste contexto de pandemia, independentemente da latitude, as famílias foram colocadas numa situação de clausura domiciliária. Mas neste cenário de ilusória igualdade importa sublinhar que todos os consumistas são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros. Os consumistas africanos, por exemplo, não beneficiaram das mesmas oportunidades de consumo que os europeus porque a qualidade e os preços dos serviços de internet são totalmente diferentes nestes dois continentes.

Seria de esperar que, numa altura de confinamento forçado, se assistisse a uma maior democratização no fornecimento de serviços de internet, através da sua elevação a serviço universal e essencial. O que lamentavelmente não sucedeu.

Hoje somos, sobretudo, agentes estabelecidos no seio de uma ordem social e económica capitalista e a internet assumiu um papel ímpar na manutenção desta ordem em contexto de pandemia. O teletrabalho permitiu que a classe trabalhadora continuasse a gerar receita e a disponibilização de bens e serviços online não deixou morrer o consumismo. Neste contexto, a internet afirmou-se como a nova arena para a superação da crise de produção capitalista e evitou (ou será que adiou apenas?) uma nova revolução económica e social.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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