Consultoras procuram mais parceiros, competências e tecnologias

A Roland Berger sugere que este mercado evolua dos tradicionais verticais de especialização para modelos de plataforma.

A consultoria é, provavelmente, a atividade mais diversificada em termos de trabalho, mas enfrenta as mesmas exigências do que outra qualquer profissão. Entre os consultores financeiros, tecnológicos, de gestão, transações ou comunicação que enchem os escritórios das Big Four – Deloitte, EY e KPMG e PricewaterhouseCoopers (PwC) –, das boutiques e médias consultoras reside uma premissa: é preciso resolver problemas, sejam eles de que natureza for. O maior desafio que enfrentam é os clientes começaram a ‘apertar’ os timings da resolução desses problemas, o que está a obrigar estas organizações a rever o seu modelo organizacional, a recrutar pessoas com outras competências, a formar constantemente aquelas que empregam e a agregar competências. Segundo os gestores contactados pelo Jornal Económico (JE), os consultores têm hoje de ter uma visão integrada do negócio que compreenda tanto o aconselhamento e a concetualização do projeto como a sua implementação e operação.

É nesse sentido que a Roland Berger sugere, em declarações ao JE, que o mercado evolua dos tradicionais verticais de especialização para modelos de plataforma e que o presidente da Accenture Portugal, José Gonçalves, diz que irá acelerar a criação de centros de competência e de emprego qualificado no país. Aliás, até a multinacional de engenharia e eletrónica Bosch decidiu criar um serviço de consultoria industrial. “A procura de serviços de consultoria tem estado muito associada aos riscos e oportunidades da era digital que vivemos. Os nossos clientes estão empenhados em transformar a forma como se relacionam com os seus clientes e como lhes fornecem os seus produtos e lhes prestam os seus serviços, bem como se relacionam com os seus próprios colaboradores e com parceiros externos no seu ecossistema”, afirma Bruno Padinha. De acordo com o responsável de Advisory da EY Portugal, os empresários estão também preocupados “com os riscos cada vez mais diversificados e abrangentes” que enfrentam no contexto de negócios atual e que advêm também da evolução tecnológica.

Na opinião de alguns gestores, hoje em dias as consultoras até têm as startups como concorrentes na guerra ao talento, porque tendem a oferecer propostas de trabalho mais atrativas para os millennials que procuram flexibilidade e experiências profissionais diferentes. “A KPMG tem vindo a repensar a sua estratégia de recrutamento, de forma a adaptar-se às novas dinâmicas de mercado e exigências da comunidade de talento. Pensando nas diferentes áreas de negócio da firma, temos apostado numa abordagem segmentada, procurando alavancar a nossa presença em eventos especializados e reforçar as relações de parceria e colaboração junto das universidades e respetiva comunidade académica”, garante Sílvia Gomes, partner da KPMG. A sócia adianta que para este ano está prevista a contratação de vários profissionais além dos 250 chamados “new joiners”, que se juntarão à equipa da KPMG no próximo mês de fevereiro e setembro. A mesma linha seguirá a EY, que pretende “recrutar todo o talento” que encontrar. “Na nossa atividade temos de ter pessoas com características que não são fáceis de encontrar, tanto individuais, como a inteligência, a competência, a capacidade de trabalho e o empenho e determinação, como coletivas, como o espírito de equipa e a preocupação mais lata com toda a sociedade e com o nosso impacto”, clarifica Bruno Padinha.

A Mazars deu a boas-vindas a 2020 com uma aposta concreta nesta área, anunciando o lançamento de uma nova linha de serviços de Consulting em Portugal com seis fundamentos: estratégia, transformação, organização e performance, TI e digital. Depois de ter nomeado recentemente 35 sócios e recrutado 500 profissionais para desenvolver esta vertente no mercado indiano, a multinacional recorre agora a Rui Lavado para assegurar a liderança do segmento de consultoria no país. Ao JE, a firma reforça a ideia de que o mercado procura uma opção distinta das Big Four e que ainda persiste a necessidade de introduzir, a nível nacional, a obrigação da auditoria conjunta (joint audit) em Portugal para “credibilizar o setor” e “evitar as práticas abusivas”. “Esperamos continuar a afirmar-nos como uma alternativa credível, profissional, eticamente exemplar, capaz de servir os nossos clientes em mais de 91 países e aproveitar esta oportunidade para reforçar o nosso crescimento”, explica o partner e head of Tax, Sérgio Santos Pereira.

Mário Patrício, senior de Tax da mesma consultora, refere que pretendem integrar 50 novos profissionais, divididos pelas quatro áreas core de negócio (Audit, Tax, Consulting e Accounting and Outsourcing Services) e pelo trio de escritórios que têm em Portugal (nas cidades de Lisboa, Porto e Leiria). Os próximos «Mazarsers» serão, segundo os mesmos porta-vozes, incluídos num ambiente de procura constante por soluções que aumentem a eficácia, segurança dos processos e possam dar origem a novos serviços.

O mesmo reforço far-se-á nas chamadas ‘boutiques’, mas a um ritmo e a uma dimensão distintas. Andreia Teixeira, CEO da consultora Teixeira & Gonçalves, prevê recrutar mais dois consultores ao longo deste ano para a apoiar no escritório de Lisboa, especializado em assessoria financeira e em processos de reestruturação de empresas. Neste âmbito, as suas maiores preocupações prendem-se com a fiscalidade. “Há uma modificação que urgia corrigir – e não foi nem tão pouco se vislumbra que venha a ser. É da maior urgência a possibilidade de as empresas credoras de entidades em insolvência possam recuperar de forma célere o IVA e consequentemente deduzir lucros calculados relativamente a faturas que se demonstrem irrecuperáveis”, lamenta. Para a fiscalista, seria igualmente importante que um credor de uma empresa com um plano de recuperação ou de insolvência aprovado, onde seja contemplado um perdão de divida aos fornecedores, pudesse deduzir de forma simplificada o IVA da percentagem de dívida reduzida mesmo que o perdão não fosse de 100%.

O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes, disse recentemente numa conferência que “as consultoras devem estar muito zangadas com o Governo” porque o Executivo liderado por António Costa não fez “da política fiscal uma manta de retalhos”. Questionado sobre a afirmação, Luís Magalhães, partner e responsável de Fiscal da KPMG, reconhece “competência técnica e visão estratégica” ao governante e refere que lhe parece “sensato que, em lugar de avançar com medidas avulsas e não ponderadas quanto ao respetivo alcance, o Governo prefira adotar as medidas de política fiscal que considere adequadas no momento próprio”.

Milhões para a informática
Nos próximos cinco anos, a KPMG irá investir 5 mil milhões de dólares (cerca de 4,6 mil milhões de euros) na transformação digital. “Será distribuído por tecnologia, pessoas e inovação, e que demonstra bem a importância que a KPMG dá a esta área. A Microsoft, com quem reforçámos a nossa aliança global para este propósito, será o nosso parceiro nesta iniciativa transformadora, dando continuidade a uma ligação de sucesso”, esclarece o sócio e líder de Advisory, Nasser Sattar. No mesmo sentido, a EY disponibilizou mil milhões de dólares para investir em inovação em dois anos e a Mazars alocou 15 milhões de euros só para o desenvolvimento de uma nova ferramenta de auditoria baseada em analítica de dados. A Deloitte não fala em valores mas realça que tem feito “importantes investimentos em inovação e conceção de novos sistemas tecnológicos”. O sócio João Paula de Carvalho, responsável pela área de consultoria, defende que é uma “forma de diferenciação de ofertas para o mercado”. As pequenas firmas optam por instalar sistemas de CRM [Customer Relationship Management] e de gestão de processos.

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