Continuar a crescer lá fora

Portugal tem de crescer a partir da procura externa. Isto obriga, a montante, a aumentar a oferta e a reforçar as vantagens competitivas face à concorrência internacional e, a jusante, a intensificar as relações comerciais com o exterior.

Até ao processo de ajustamento desenhado pela troika, o modelo de desenvolvimento da economia portuguesa assentava na procura interna. Em 2008, o peso das exportações no PIB estava abaixo dos 30% e as empresas exportadoras constituíam apenas 8% do tecido empresarial nacional. Acresce que, nesse mesmo ano, as vendas ao exterior representavam somente 35% dos negócios das empresas.

Em 2018, as exportações passaram a representar quase 44% da riqueza nacional, o que é revelador de como a economia portuguesa se tornou mais aberta ao exterior. Hoje, há cerca de 34.477 empresas exportadoras em Portugal, mais nove mil do que em 2008. E constituem 11% do tecido empresarial nacional.

Porém, algumas nuvens negras assomam no horizonte de crescimento das exportações. A economia mundial está em desaceleração e o protecionismo a ganhar adeptos. A procura externa de bens/serviços portugueses tem vindo a diminuir, em boa medida devido ao arrefecimento económico dos principais destinos das nossas exportações. Para se ter uma ideia, o ritmo de crescimento da procura externa dirigida a Portugal passou de 2,5% na segunda metade de 2018 para 1,8% no primeiro semestre de 2019.

As projeções do Banco de Portugal apontam para uma “recomposição” do crescimento do PIB, com um reforço do peso da procura interna em detrimento das exportações. Isto pode configurar uma alteração de modelo de desenvolvimento, passando a procura interna (potencialmente indutora de importações e alavancada por dívida) a ser o principal fator de dinamização económica. Se for o caso, Portugal regressa a um cenário similar ao vivido antes da crise de 2008, em que a economia crescia de forma pouco sustentável.

A meu ver, Portugal deve continuar a apostar na internacionalização da economia, mesmo que a conjuntura internacional não se afigure favorável nos próximos anos. Com um mercado doméstico exíguo, níveis de endividamento elevados, desequilíbrios na balança externa e avultadas necessidades de financiamento externo, o nosso país não pode fazer da procura interna o seu motor de crescimento. Deve, isso sim, focar-se na expansão do tecido industrial, no reforço da competitividade e na subida das exportações, sobretudo com maior valor acrescentado.

Para aprofundar a internacionalização da economia portuguesa, importa desde logo alargar a base exportadora do país. Apesar da evolução dos últimos anos, o peso das empresas exportadoras no tecido empresarial nacional (11%) é ainda baixo, com a agravante de que cerca de 50% destas empresas vende para um só mercado: Espanha ou Angola. É preciso, portanto, incentivar mais empresas a exportar, sobretudo PME e startups, cujas vendas ao exterior são menos significativas. Na verdade, as exportações portuguesas estão muito concentradas em grandes empresas. As dez maiores exportadoras (cerca de 0,02% do universo total de exportadoras) foram responsáveis por 21,3% das vendas ao exterior em 2018.

É também fundamental alterar o perfil exportador do país. Importa, desde logo, encontrar novos mercados de destino, atenuando a dependência comercial em relação à União Europeia, e contornando o abrandamento económico dos nossos parceiros. Há ainda que aumentar a intensidade tecnológica e as características diferenciadoras dos nossos bens/serviços, de modo a torná-los mais competitivos. Além disso, Portugal deve reforçar o valor acrescentado nacional das exportações, que presentemente é menor do que o valor bruto das mesmas.

Obviamente que a internacionalização é um processo complexo. Para muitas empresas, dar ao negócio uma dimensão internacional tem implicações profundas na sua cadeia de valor, além de exigir capital humano especializado. Para fazer frente a estas dificuldades, há que apostar em parcerias entre empresas, acelerar a transformação digital, qualificar recursos humanos e desenvolver novas competências.

Em suma, Portugal tem de crescer a partir da procura externa, e não da procura interna. Isto obriga, a montante, a aumentar a oferta (mais bens/serviços transacionáveis) e a reforçar as vantagens competitivas face à concorrência internacional e, a jusante, a intensificar as relações comerciais com o exterior.

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