Contos da Montanha

A montanha onde cresceram os meus pais, no Líbano, era cobiçada por todos os grandes poderes políticos. E, perante todos os invasores, o sentimento era o mesmo. Resistência e um firme sentimento de independência.

Talvez inspirada pela leitura de uma das crónicas do Rui Tavares, “Reaprender a contar histórias na era da opinião”, hoje simplesmente quis contar histórias. Algumas das melhores histórias que conheço são sobre a montanha onde cresceram os meus pais, no Líbano. Ambos nasceram no seio de um clã de “lobos” (Dib significa lobo em árabe), que durante centenas de anos criou raízes numa pequena vila a cerca de 800 metros de altitude. A seus pés, um dos vales mais verdejantes do Líbano, preservado desde os tempos em que a terra de Canãa figura nas histórias da Bíblia.

A minha bisavó Saada enviuvou muito jovem, e coube ao seu filho Youssef assumir o papel de ‘homem da casa’ e assegurar o sustento da família. Mas tanto a minha bisavó como o meu avô não eram os típicos protagonistas de aldeia que se tinham conformado às agruras de uma vida rural. Saada, além de ser a parteira da aldeia, era conhecida como poeta e as suas cantigas ao desafio tornaram-se famosas na região. A sua geração era em grande parte analfabeta e, infelizmente, muita dessa tradição oral perdeu-se ao longo dos tempos.

Chegou o momento de fazer uma pausa nesta história e de explicar que a montanha em questão era cobiçada por todos os grandes poderes políticos desde a era romana. E, perante todos os invasores, o sentimento era o mesmo. Resistência e um firme sentimento de independência. A nação podia aceitar o governo de poderes estrangeiros, mas a comunidade nas montanhas decidia o seu futuro e não poucas vezes escolheram o caminho da guerra.

A religião também desempenhou um papel importante na eclosão de muitas tensões, mas a minha crónica é muito curta para poder partilhar todos os ricos detalhes que ouvi em criança, contados pelos meus pais.

Voltando ao meu avô Youssef, era, acima de tudo, um combatente. Na crise política de 1958, foi gravemente ferido e declarado morto. Ao descobrirem que ainda estava vivo, foi levado para o cárcere, onde passou um ano até ser libertado e regressar para junto da família. Pai de seis crianças (e ainda nasceram mais dois filhos), a sua inquietação era imensa, não se conformava aos tempos e envolveu-se profundamente na defesa das causas de Kamal Joumblatt, o fundador do Partido Socialista Progressista libanês, que viria a ser assassinado já em plena Guerra Civil do Líbano.

Talvez o meu gosto pela intervenção política venha dele. Quanto ao meu avô e bisavó, a história não tem um final feliz. Ambos foram mortos na montanha, durante a guerra civil libanesa de 1975-1990, no mesmo ano em que nasci.

As tensões irrompem de novo no Líbano em 2019, com o seu povo unido a manifestar-se nas ruas por mudança. Não desistem e mostram a mesma inquietação que não dava descanso ao meu avô. “Cá dentro inquietação, inquietação, é só inquietação, inquietação”, como cantava José Mário Branco. Afinal tem razão Rui Tavares na sua crónica, quando diz que “é possível dialogarem entre si mentes de lugares diferentes, de culturas diferentes, com vidas aparentemente radicalmente diferentes, através de milénios diferentes.”

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