Covid-19 deve levar PSI 20 a fechar hoje o pior trimestre desde 2002

Até ao final de 30 de março, o principal índice bolsista português registou a segunda maior queda trimestral neste século, pressionado pelo impacto económico da propagação do novo coronavírus. Nem na crise financeira de 2008 a bolsa nacional caiu tanto.

Stringer/Reuters

A possibilidade de novos ataques terroristas, a iminente invasão do Iraque e e vários escândalos financeiros ensombravam na altura o pensamento dos investidores, levando os índices em Wall Street ao pior desempenho desde 1987. Em Portugal, o PSI 20 acabava o terceiro trimestre de 2002 com uma derrapagem de 25,01%.

Esta terça-feira o principal índice acionista português não deverá ultrapassar esse tombo histórico, mas tendo afundado 23,61% até ao fecho do dia 30 de março pode ocupar o segundo lugar desse pódio negativo, à frente do trambolhão de 21,06% provocado pela crise financeira no trimestre final de 2008.

Se em 2002 foram as preocupações geopolíticas que levaram as bolsas mundiais a contagiar a de Lisboa, e em 2008 os problemas graves do sistema financeiro, no primeiro trimestre de 2020 foram a propagação global do surto do novo coronavírus e a repentina previsão de uma grave recessão.

“O comportamento do índice nacional vai de encontro ao que tem sido o comportamento dos maiores índices mundiais”, afirmou Nuno Caetano, analista da corretora Infinox. “A evolução do Covid-19 levou as bolsas a mínimos de vários anos, e o PSI 20 não foi excepção”.

Nos Estados Unidos os principais índices desceram entre cerca de 14% e 23%, mas na Europa as quedas trimestrais até esta segunda-feira foram mais acentuadas, com o espanhol IBEX a perder 30,26% e o italiano FTSE MIB a cair 28,22%.

“É um comportamento que surge num contraciclo, devido ao aparecimento deste surto, e não a nenhuma crise político-financeira, e que os mercados não esperavam que se viesse a desenrolar desta forma”, explicou Nuno Caetano.

Ponto de viragem improvável

O desempenho do PSI 20 foi piorando em cada mês do trimestre. Em janeiro, um ganho ligeiro de 0,73% dava razão inicial  à maior das antevisões que o ano seria de ganhos, mas menores do que no rally de 2019. Fevereiro trouxe um repentino tombo de quase 10%, com o surto a fugir das portas da China. Março viria, no entanto, a ser ainda pior, com o chamado lockdown global, confinamento obrigatório e paragem da atividade económica em Portugal, tal como em quase todo o mundo, a causar uma queda de 17,08% no PSI 20, o pior desempenho mensal desde a descida de 20,82% em outubro de 2008.

Com os bancos centrais e governos a dispararem todo o arsenal de liquidez e estímulos económicos para tentar amenizar a recessão que aí vem, as bolsas mundiais respiraram de alívio na semana passada, com o PSI 20 a recuperar 7,43% na melhor semana desde maio de 2009.

Será um ponto de viragem?  “Não creio”, respondeu Nuno Caetano.  “O panorama geral é negativo, com o otimismo dos investidores com a onda de estímulos a ser anulado com a propagação da pandemia em todo o mundo e com a queda dos preços do petróleo. Fazer grandes perspectivas para o segundo trimestre é, nesta fase, bastante impreciso”.

Ainda assim, o analista da Infinox adianta que os próximos três meses deverão ser marcados pelo desenvolvimento que o surto terá nas grandes economias mundiais, principalmente no EUA, que vê neste momento como o epicentro da pandemia.

“A forma como a Europa responde aos problemas sociais e económicos que nos estão a atingir, nomeadamente em Espanha e Itália, assim como também a possível descoberta de uma vacina contra o vírus, serão sem dúvida factores que irão marcar o segundo trimestre, tanto a nível mundial, como por consequência, também ao nível nacional”, concluiu.

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