A Covid-19 e a globalização

No rescaldo desta crise teremos inevitavelmente um realinhamento das regras do jogo. Veremos então quem serão os perturbadores do statu quo. Não é evidente que seja a China.

Refletindo sobre as consequências da pandemia originada pela Covid-19, alguns analistas vieram constatar que afinal a globalização não funcionou como se esperava. A “Covid-19 poderá terminar com a globalização como a conhecemos”. Com a crise, alguns países perceberam a sua dependência para obterem produtos médicos essenciais. O que se aplica aos produtos médicos é válido também para outros bens.

Alguns analistas foram mais longe. Não só prognosticam como passaram a defender uma maior intrusão dos governos nos sistemas produtivos. A crise está a permitir reavaliar o mérito até aqui inquestionável da interdependência económica global. As redes produtivas criadas pela globalização acentuaram a conflitualidade e a luta pelo poder, em vez de promoverem a cooperação. O modelo económico assente na especialização do trabalho entre países criou eficiências, mas também grandes vulnerabilidades, que se tornarão cada vez mais evidentes.

As vulnerabilidades agora expostas pela crise eram conhecidas. Os dirigentes nacionais preferiram ignorá-las. É incorreto dizer-se que “Administração Trump usou a pandemia para se retirar da integração global”, porque os EUA já se estavam a retirar antes da crise. A pandemia veio acelerar involuntariamente uma tendência já em curso.

Os promotores do comércio livre e da circulação de capitais sem restrições não previram os impactos negativos que a interdependência económica poderia provocar nas economias do mundo ocidental industrializado. O Ocidente, promotor da globalização, perdeu o seu controlo e, consequentemente, deixou de ser o principal beneficiário.

Enquanto que nas economias emergentes, a globalização tirou milhões de seres humanos da fome e da miséria, e foi responsável pela emergência de classes médias, no mundo desenvolvido a globalização trouxe graves problemas económicos que minaram a legitimidade da ordem liberal. Aí assistimos à perda de empregos, ao declínio dos salários e ao aumento das desigualdades, resultado do deslocamento das indústrias dos países desenvolvidos para locais com custos de produção mais baixos, agravadas pela automação e inteligência artificial.

As consequências nefastas da globalização fizeram-se naturalmente sentir nos EUA. A eleição de Trump foi um resultado disso. Importantes segmentos da base industrial americana perderam, em apenas uma década, cerca de um terço da força de trabalho. Em parte, devido às alterações tecnológicas, mas fundamentalmente devido à competição da China e de outros concorrentes de baixo custo. Estes desenvolvimentos tiveram enormes consequências sociais. Associado a décadas de erosão do poder de compra, a classe média americana sofreu um processo de “proletarização”.

A crise económica e financeira de 2008, causada pela desregulação do capital financeiro, igualmente uma consequência da globalização, cujo impacto foi mais significativo nas economias do Ocidente do que nas do Oriente, veio agravar as condições de vida das populações e cravar mais um prego na legitimidade dos sistemas políticos ocidentais.

Sem a globalização, a China não teria ascendido ao ponto de competir pela liderança da Ordem. Como grande beneficiário, Xi Jinping foi defendê-la a Davos, em 2017. No rescaldo desta crise teremos inevitavelmente um realinhamento das regras do jogo. Veremos então quem serão os perturbadores do statu quo. Não é evidente que seja a China.

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