Covid-19, o inesperado acelerador de soluções ‘cashless’

A desmaterialização do dinheiro é já uma realidade. Durante a pandemia, as soluções de pagamentos digitais em Portugal não pararam de crescer. MB Way já tem 2,4 milhões de utilizadores e Revolut aproxima-se do meio milhão.

O novo coronavírus abalou certos hábitos da sociedade e fechou-nos em casa. O vírus pode não ter criado nada de novo, mas levantou o véu do ceticismo que pairava sobre o uso da tecnologia e facilitou o ajustamento dos comportamentos para minimizar os riscos do contágio. Talvez a adaptação mais substancial ao confinamento tenha passado pelo mundo do trabalho. Confinados em casa, aqueles que puderam encontraram, por necessidade, uma (nova) forma de trabalhar nas ferramentas de teletrabalho. A Zoom ou o Microsoft Teams — entre tantas outras opções — já existiam, mas até à Covid-19 nunca o statu quo da reunião presencial tinha sido posto em causa como em tempo de pandemia.

Nos meios de pagamento foram igualmente tomadas medidas de mitigação do risco de contágio. No final de março, o sistema bancário nacional, em articulação com o Banco de Portugal (BdP) e a SIBS, aumentou o limite dos pagamentos dos cartões contactless de 20 euros para 50 euros. A iniciativa quis incentivar os pagamentos com cartão em detrimento do dinheiro físico. E um decreto-lei do Governo estabeleceu que, até 30 de junho, os comerciantes que disponibilizem TPA não podem recusar ou limitar a aceitação de cartões para pagamento de quaisquer bens ou serviços, independentemente do valor da operação.

“Os pagamentos acompanham as tendencias de digitalização, nomeadamente, a liberdade de serem efetuados em qualquer lugar e a qualquer momento. Durante este período, foram criadas pelo Governo medidas legislativas no sentido de facilitar e fomentar a utilização de meios eletrónicos de pagamento”, refere Madalena Cascais Tomé, CEO da SIBS, a empresa gestora da rede Multibanco e criadora do MB Way.

Mas o pós-Covid é um enorme ponto de interrogação. Do regresso à “normalidade” para o regresso à “anormalidade” — como se tem dito na praça pública — o único dado adquirido é que não sabemos como será o mundo se e quando for vacinado contra a pandemia.

Os meios de pagamento não escapam a esta incerteza. Para cimentar a sua digitalização “agora é necessário dar o passo seguinte”, realça Madelena Cascais Tomé, isto é, “retirar o caráter temporário destas medidas e dar início ao processo que levará à aceitação universal dos pagamentos eletrónicos”.

A Revolut Portugal, por sua vez, mergulha sem hesitação numa sociedade cashless. Para Ricardo Macieira, country manager da Revolut Portugal, estamos a passar por um “daqueles momentos definidores”.

“Há muito tempo que se tem vindo a consolidar esta certeza de que caminhamos para um futuro marcado pela progressiva desmaterialização do dinheiro”, diz o líder da fintech. E salienta: “não tenho dúvidas que esta pandemia trouxe a certeza de que o dinheiro físico, como o conhecemos, está obsoleto e que caminhamos para sociedades progressivamente cashless. As pessoas fizeram menos levantamentos, fizeram mais compras online, usaram mais cartões virtuais e descartáveis que oferecem maior segurança, tal como pagamentos contactless por motivos de higiene e saúde pública. Nada vai voltar a ser exatamente como antes e a forma como encaramos e usamos o dinheiro mudou e vai continuar a mudar perante esta nova realidade”.

A Covid-19 levou muitas pessoas a descarregar a app do banco para o telemóvel ou a utilizar o homebanking pela primeira vez. Habituado a ver a inovação bem de perto, João Freire de Andrade, executive director do BiG Start Ventures e fundador da Portugal Fintech, diz que “é indubitável que o confinamento acelerou vários hábitos digitais”, como o de comprar online.

“Para isso, muitas pessoas instalaram pela primeira vez aplicações de pagamentos ou utilizaram este tipo de meios num processo de compra. Este efeito foi sentido não só do lado dos compradores mas também dos vendedores. Muitos não tinham até hoje jornadas de compra digitais, o que era um fator que estava também a atrasar a massificação deste tipo de serviços”, explica.

 

Mais MB Way e mais Revolut durante a pandemia
Helder Rosalino, administrador do Banco de Portugal (BdP), revelou recentemente como a digitalização dos pagamentos entrou no dia a dia dos portugueses, apesar da redução “sem precedentes” nos pagamentos com cartão.
Num artigo de opinião no jornal “Eco”, o administrador do BdP afirmou que nos primeiros meses do ano, as compras realizadas com cartões contactless aumentaram 60% em número e as compras online cresceram 11% face a igual período do ano passado.

Já o SIBS Analytics constatou que, durante o estado de emergência, as compras em loja caíram 50% face aos meses de janeiro e fevereiro, “com alguma recuperação para uma quebra de 30% nas últimas duas semanas, após o início do desconfinamento”, explica Madalena Cascais Tomé.

Hoje, o MB Way conta com 2,4 milhões de consumidores, além de ter registado um aumento na sua utilização. “Os dados da última semana revelam que as compras em loja com MB Way atingiram o valor mais elevado, 45% acima do número médio de compras registado antes do primeiro caso de infeção e 13% acima da semana anterior”, sublinha a CEO da SIBS.

“A Covid-19 trouxe mudanças inegáveis nos hábitos de consumo dos portugueses”, vinca Madalena Cascais Tomé.
O reforço da digitalização dos pagamentos — e da banca — não foi afetado pelo vírus. Durante a pandemia, a Revolut Portugal continua a crescer, ainda que a um ritmo “ligeiramente inferior nos meses de confinamento”, diz Ricardo Macieira. Mas, em termos homólogos, o crescimento foi superior este ano, numa altura em que a Revolut Portugal já tem cerca de 500 mil utilizadores.

O country manager da Revolut Portugal antecipa que “no fim de junho poderemos oficializar o meio milhão de clientes no nosso país. Em dezembro de 2018 tínhamos 98 mil utilizadores, e o crescimento no último ano e meio foi muito acentuado, independentemente da pandemia”.

Na Fintech House, as startups que empurram diariamente o setor financeiro para a inovação sentiram um “enorme travão”, porque os seus clientes — bancos e seguradoras — estavam a adaptar-se ao teletrabalho, explica João Freire de Andrade.

No entanto, as fintechs não pararam e a “adaptação das suas soluções foi muito rápida”. “As soluções variaram, desde dar acesso rápido aos mais diversos meios de pagamento, como é o caso da Switch, a soluções de biometria de abertura de conta, como é o caso da LOQR, ou a soluções de invoicing digital, como a InvoiceExpress. Houve quase 50 fintechs a disponibilizarem os seus serviços adaptados ao contexo atual”, diz o fundador da Portugal Fintech.

Vamos entrar num novo paradigma na forma como utilizamos o dinheiro? Ainda não se sabe, mas a SIBS “ve uma economia cada vez mais digital, em que o dinheiro, no seu formato físico, tende a tornar-se menos relevante, fomentando uma sociedade progressivamente mais cashless”, frisa Madalena Cascais Tomé.

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