Há cidades que se limitam a “captar investimento”. E há regiões que constroem o futuro. A diferença? Um tripé simples e exigente: criatividade para imaginar o que não existe, inovação para transformar ideias em produto e talento para ligar tudo — do laboratório ao mercado.
Não se legisla isto por decreto, constrói-se em ecossistema. E Leiria tem aqui uma oportunidade rara: tornar-se a Full Stack Valley — um sítio onde a cadeia de valor está toda em casa, da ideação à exportação. Full Stack não é slogan; é método. Começa na ideação (onde nascem os conceitos), passa pela prototipagem (onde se testa rápido e barato), ganha músculo na industrialização (onde a região tem décadas de “mão de obra” qualificada e, sobretudo, “mão de cabeça”) e fecha o ciclo na exportação (onde se prova que valor é aquilo por que alguém lá fora paga).
Quando esta linha é contínua, a criatividade deixa de ser fogacho e passa a ser vantagem competitiva composta. Em Leiria, esta continuidade existe — e é isso que nos pode transformar de “fábrica de terceiros” em plataforma de produtos próprios. A Startup Leiria é o motor operacional desta ambição. Não apenas pelos programas — mentoria, hackathons, consultoria a spin-offs —, mas pelo que um hub verdadeiro faz: junta pessoas certas, acelera decisões e abre portas lá fora (EBN, BIC Africa, RunEU).
Os números contam uma história que começa a ter escala: presença no ranking europeu do Financial Times (Europe’s Leading Start-up Hubs 2025), mais de mil empregos criados, um ecossistema empresarial vasto e faturação anual crescente associada ao dealflow local. É pouco para nos acomodarmos; é muito para provar que o caminho existe. Se quiser um mapa estratégico, ele chama-se classe criativa. O velho triângulo do “talento, tecnologia e tolerância” não é moda — é infraestrutura social do crescimento.
Em Leiria, a peça académica é real (o Politécnico a formar e transferir), o lifestyle atlântico puxa (Peniche e Nazaré como ativos de atração) e o nosso DNA maker vem de fábrica: moldes, cerâmica, polímeros, metalomecânica, impressão, design — o território onde “imaginar” encontra “fabricar”. É aqui que a criatividade deixará de ser “evento” e passará a “processo”.
Mas não nos iludamos: o tabuleiro global está a mexer e depressa. A nova geopolítica industrial já reposicionou cabeças de rede. A ofensiva tecnológica e comercial chinesa conquistou o Sul Global; marcas, fábricas e propriedade intelectual estão a migrar a uma velocidade que apanha a Europa a pedir tarifas enquanto perde mercado. Para quem vive da subcontratação, isto corrói margens; para quem sobe na cadeia, isto abre portas. A escolha não é moral, é estratégica: ou reposicionamos Leiria como parceiro de alto valor — engenharia, protótipo, integração digital, materiais avançados — ou ficamos presos à compressão de preços.
No horizonte 2030, a indústria que conta é cada vez menos “física” e cada vez mais “de conhecimento e criatividade”. A fábrica torna-se plataforma de software; o operador, um analista de processos; a qualidade, um algoritmo. Ganham as empresas que treinam pessoas, integram sistemas e desenham modelos de negócio além da peça e treinam a Criatividade. É aqui que o Full Stack Valley se decide: na gestão moderna, na autonomia das equipas, na formação e na capacidade de fomentar a criatividade.
Então, o que fazer já? Três movimentos simples e difíceis. Primeiro, radicalizar a ponte escola-empresa: projetos reais em sala de aula, docentes em empresas, engenheiros a lecionar, e um “mercado” de desafios aberto ao ecossistema — do município às PME, das clínicas às fábricas. Segundo, posicionar a Startup Leiria como a “torre de controlo” do pipeline full stack: curadoria de problemas, aceleração com prototipagem rápida, catálogo de capacidades industriais e uma frente de internacionalização agressiva. Terceiro, tratar o talento como infraestrutura crítica: desde a captação (comunicarmos a nossa proposta de valor de vida e de carreira) à retenção (progressão, equity, projetos com propósito).
Os eventos-âncora, como o NEXXT, são a montra — o trabalho de bastidores faz-se todos os dias. Não precisamos de prometer o impossível. Precisamos de escolher o que já está ao nosso alcance. Criatividade sem execução é arte; execução sem criatividade é rotina; talento sem contexto é desperdício.
Full Stack Valley é pôr as três a trabalhar juntas — e fazê-lo daqui, sem pedir licença a Lisboa ou a Bruxelas. A Startup Leiria já mostrou que a engrenagem roda; cabe-nos agora aumentar a rotação e a ambição. Se o futuro é um lugar onde se chega com ideias, velocidade e gente boa, então a morada pode muito bem escrever-se assim: Leiria, Full Stack Valley. Vamos?



