Crise energética e transição climática

Uma má gestão política da actual crise energética pode gerar anticorpos muito perigosos para a necessária transição climática das próximas décadas.

Estamos a viver a primeira crise energética da transição climática, ainda que o problema seja sobretudo conjuntural. Na verdade, em apenas três semanas, os preços actuais e futuros do gás natural subiram cerca de 30%, o que significa que os mercados financeiros estão menos confiantes de que o problema se resolva tão depressa como acreditavam ainda em Setembro.

Então, esperava-se uma normalização das cotações deste combustível na Primavera de 2022 e agora tal já só deverá acontecer praticamente 12 meses depois. Dado que se registou uma deterioração tão forte das perspectivas em tão pouco tempo, não é de descartar a hipótese que um fenómeno semelhante se repita nas próximas semanas.

Ainda assim, convém salientar que os preços do gás a ser fornecido a partir de Maio de 2022 se encontram a níveis que são um pouco menos de metade dos actuais. Ou seja, ainda que haja maior pessimismo, é ainda convicção generalizada de que estamos perante um fenómeno que é, na sua essência e no actual contexto, de curto prazo.

Isso faz toda a diferença, porque se a subida de preços fosse permanente, não haveria grande alternativa senão preparar desde já a adaptação aos novos valores. Se o aumento é temporário, o tipo de intervenção pública que se justifica e que é financeiramente possível já é outra.

Para além disso, a Agência Internacional de Energia (IEA), ligada à OCDE e de que Portugal é membro, no seu último relatório, tem uma secção sobre a transição centrada nas pessoas, onde se diz que é necessário “erradicar a pobreza energética”. É necessário ter muito cuidado com a gestão política da transição climática, sob pena de se estar a criar perigosos anticorpos contra esta necessidade. Os erros que se cometerem agora poderão ter consequências durante as próximas décadas e, por isso, era importante que se olhasse para além das contas públicas dos próximos meses.

A ninguém pode ser pedido que faça a transição energética em algumas semanas, quando o próprio governo não se tem empenhado em reformas estruturais. A diminuição dos impostos nos combustíveis que têm sido propostos são insignificantes e irrelevantes para proteger os consumidores e as actividades económicas mais afectadas pelos recentes aumentos.

Em relação às questões estruturais, choca a ausência de investimento na conservação de energia, que é essencial para chegar às exigentes metas que venham a ser acordadas em Glasgow no próximo mês. Quantos edifícios públicos têm certificação energética? Qual é a sua classificação média? O que é que está a ser feito para que a Península Ibérica tenha ligações ao resto da rede eléctrica europeia?

O gás natural tem um consumo com uma sazonalidade muito mais acentuada do que o petróleo e é de mais difícil abastecimento, o que recomendaria reservas estratégicas maiores e é o oposto o que se passa, que necessita de ser corrigido.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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