Crónica de uma morte anunciada em Moscavide

Talvez a maior justiça esteja em tentar compreender porque é que fingimos que um problema que está à vista de todos não existe e negamos qualquer tentativa de reflexão sobre o mesmo.

Um homem trajado de juiz de morte decidiu desferir quatro tiros contra um homem indefeso em Moscavide, pelos relatos na imprensa portuguesa. Depois deste infeliz acontecimento e hediondo crime que vitimou Bruno Candé Marques, somos, talvez, obrigados a estabelecer um paralelo com a famosa estória de Gabriel García Márquez, onde dois homens andavam atrás de um outro para o matar e ninguém na comunidade acreditaria que o desfecho seria, pois, uma morte em pleno dia e no meio da cidade, realizando uma vingança.

No caso de Bruno Candé, o homem andou atrás da sua vítima e por onde passava deixava claro que iria avançar para um ajuste de contas, fazendo deste homem mais um dos seus troféus de guerra, porque antes, em África, já tinha matado outros sujeitos da mesma condição. Não se ficando pelas suas palavras racistas e preconceituosas contra Bruno Candé, acabou mesmo por efectivar as suas ameaças, gerando uma trágica morte.

Depois de conhecida a morte de Bruno Candé, muitos cidadãos clamaram por justiça, acreditando que a justiça iria, de alguma forma, restituir o sorriso brilhante sempre presente na luta de superação das armadilhas da vida de um jovem negro da periferia de Lisboa. Deste modo, tornou-se, Candé, o actor de teatro. O teatro perdeu um actor que deixou os palcos da vida demasiado cedo através de uma cena trágica.

Logo urgiu um clamor por justiça dos cidadãos entrevistados contra a trágica morte de Bruno Candé, como se essa justiça tivesse alguma vez a capacidade de cobrir com um manto branco a tragédia que nos assolou. Não há justiça capaz de amparar a dor de uma família e a ausência de cada dia que saberá a mais ausência, quando Candé não voltar a entrar pela porta de casa e a inundar com o seu sorriso a vida dos seus familiares.

Essa justiça clamada pelos cidadãos torna-se insuficiente porque não devolve o pai aos três filhos que passaram a ser órfãos. Igualmente, não devolve o marido à esposa, o tio aos sobrinhos, o irmão aos seus irmãos, o amigo aos seus amigos. Essa justiça não nos deixará assistir à peça teatral que estaria a ser preparada em sua homenagem.

A justiça acaba por ser uma resposta a um clamor colectivo para evitar que uma tragédia fique sem uma reparação, sendo um exercício para a protecção da comunidade, aumentando o grau de confiança nas autoridades. Mas, é totalmente ilusório acreditar que servirá, em algum ensejo, para restituir um ente querido aos seus familiares. Talvez a maior justiça esteja em tentar compreender como uma sociedade caminha para a tragédia sem se dar conta ou porque é que fingimos que um problema que está à vista de todos não existe e negamos qualquer tentativa de reflexão sobre o mesmo.

Esta narrativa assemelha-se à crónica de Gabriel García Márquez, onde ninguém foi capaz de evitar a morte de Santiago Nasar depois de este ter sido acusado de desonrar Ángela Vicario. Os seus irmãos gémeos, Pedro e Pablo Vicario, acabaram por esfaquear mortalmente Nasar. Apesar de toda a comunidade ter tido conhecimento da jura de vingança dos irmãos, como forma de honrar a imagem da família, ninguém acreditou que o fatal incidente se concretizasse.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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