Crónica do país distraído

Apesar da importância do rigor nas contas públicas, a degradação de todos os indicadores económicos, nos próximos trimestres, é inevitável. Mas os desafios do país não se podem confinar às contas públicas. Onde fica a ambição e o futuro? Estes desafios só podem ser respondidos com exigência, determinação e mudança de paradigma.

A resposta do país aos desafios económicos provocados pela pandemia confirma, mais uma vez, a fragilidade da nossa economia. Este tema vai certamente marcar a agenda política e económica nos próximos anos. O esforço orçamental para acomodar a despesa adicional em saúde e o apoio às empresas em lay-off vai levar o governo a tomar opções para o relançamento da economia, o único caminho possível, esgotada que está a subida de impostos pela exaustão fiscal já existente e não haver condições para manter o actual arrastão fiscal.

Na Europa, a resposta ao período pós-Covid fica marcada pelo realinhamento do eixo franco-alemão, ultrapassada a instabilidade inicial inerente à decisão dos mecanismos de auxilio financeiro, particularmente entre países que não aceitaram a forma inicial dos mesmos, mas posteriormente os validaram, e ainda sujeitos a ajustamentos pontuais.

Apesar da importância do rigor nas contas públicas, a degradação de todos os indicadores económicos, nos próximos trimestres, é inevitável. Mas os desafios do país não se podem confinar às contas públicas. Onde fica a ambição e o futuro? Estes desafios só podem ser respondidos com exigência, determinação e mudança de paradigma.

Por vezes, esquecemo-nos que não obstante integrarmos a União Europeia, existe competitividade entre os países. Se no passado recente foi a aposta no turismo que fez acelerar a criação de emprego, há que reconhecer que o investimento num só sector fragiliza e cria uma dependência excessiva. Há que voltar à industrialização e à diplomacia económica para abrir mercados e disputar investimentos para Portugal.

Um dos problemas estruturais com que o país actualmente se debate e que atinge particularmente os mais jovens, é o salário médio aproximar-se perigosamente do salário mínimo. Hoje a prioridade é salvar postos de trabalho, mas há que pensar no futuro. Temos que contrariar esta tendência da única forma possível, acrescentar valor ao que produzimos e exportar mais e melhor.

É lamentável ver alguns produtos de excelência, feitos em Portugal, do sector têxtil ao sector vinícola, exportados a baixo preço porque não existe o factor marca. Algumas das marcas de roupa mais caras e conhecidas do mundo são discretamente produzidas em Portugal (e exportadas por cerca de 15% do valor de venda ao público), idem para sapatos de alta qualidade ou para uma das marcas mas prestigiadas de material fotográfico.  No sector dos vinhos, existe excelência nos nossos produtos, mas o preço médio do vinho exportado ainda é muito reduzido.

A missão de criar marcas, apostar no design ou fazer um upgrade às marcas portuguesas já existentes, é um desafio que pode levar décadas, mas se não começarmos hoje, daqui por dez anos continuaremos sem nada ter. Nunca venceremos a batalha da produtividade pelo lado dos salários baixos ou pelo pouco valor acrescentado do que produzimos, para isso já existe a China com uma disponibilidade de mão-de-obra quase ilimitada. Com o envelhecimento da população mas com uma crescente qualificação académica, só nos resta um longo caminho de aposta na excelência, na tecnologia e no reforço das exportações. Afinal, já exportamos e somos muito bons a produzir, mas péssimos a vender.

A recente nomeação de um conselheiro especial para o primeiro-ministro se, por um lado, mostra a incapacidade do governo para se reinventar e fazer aquilo que lhe compete directamente, por outro lado, face ao perfil do indigitado, é uma aposta, no sentido certo, que pode trazer valor e ajudar a relançar a economia.

No entanto, de nada serve criar valor acrescentado e exportar mais se depois toda a riqueza é drenada para injectar recursos dos portugueses na banca como tem escandalosamente acontecido nos últimos anos. No futuro, há que exigir maior e mais exigente supervisão bancária bem como o cumprimento de normas de racionalidade de gestão nas empresas públicas ou com capital público, contrariando-se assim o passado recente de má memória. Desconheço se já foi realizado um estudo sobre quanto custaram, aos contribuintes, as sucessivas intervenções na banca, mas não podemos voltar a cometer os mesmos erros. Os resultados deste processos são demasiados pesados para nunca mais os esquecermos.

O primeiro-ministro tem sido um político hábil, desviando as atenções nos momentos críticos, e no tocante às eleições presidenciais, mais uma vez realizou uma magistral jogada de antecipação politica ao resolver um problema totalmente perdido para o PS. O problema é que a jogada política, sobre as eleições presidenciais, não torna o país mais competitivo, nem mais desenvolvido. Poderá animar as hostes do partido do governo, gerar ódios de estimação e alimentar vinganças pessoais e partidárias, mas a vida dos portugueses fica rigorosamente igual ou pior porque nada foi feito para a melhorar. E esta é uma obrigação do governo, cada vez mais alheado e distraído das necessidades reais dos cidadãos. O país merece mais. Porque o futuro dos portugueses não tem que ser fado nem triste.

O autor escreve de acordo com o Antigo Acordo Ortográfico

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